segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Usurpação de cidadadia

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

De todos os casos cabulosos ocorridos no governo Luiz Inácio da Silva, o da quebra indiscriminada de sigilo fiscal na delegacia da Receita Federal em Mauá é o mais angustiante.

De Waldomiro Diniz à arquitetura de dossiês na Casa Civil na Presidência da República para atrapalhar o trabalho da CPI dos Cartões Corporativos; das urdiduras da direção do PT envolvendo empréstimos fraudulentos e desvios de recursos em empresas públicas (mensalão), à quebra do sigilo bancário de uma testemunha das andanças do ministro da Fazenda em uma casa de lobby de Brasília, todos tiveram objetivos específicos.

Pretendiam algo: Waldomiro, o homem encarregado pelo então chefe da Casa Civil, José Dirceu, de organizar as relações com o Congresso, cobrava propina de um bicheiro.

O dossiê com os gastos da Presidência quando ocupada por Fernando Henrique Cardoso pretendia (e conseguiu) inibir a atuação dos oposicionistas na comissão parlamentar de inquérito criada para elucidar as razões do aumento nos gastos dos cartões corporativos do governo todo e também para pedir acesso às despesas secretas da Presidência.

Os empréstimos simulados visavam a "lavar" dinheiro que financiava as campanhas eleitorais dos partidos aliados e mantê-los, por esse método, como integrantes da base parlamentar governista.

A quebra do sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa na Caixa Econômica Federal deu-se com a finalidade de tentar desmoralizá-lo como a testemunha que desmentia o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no caso da casa de lobby. Palocci negou no Congresso e em pronunciamento que frequentasse a tal casa e Francenildo, caseiro do local, atestava que o via sempre por lá.

Os personagens eram conhecidos e os episódios por mais nebulosos que fossem eram compreendidos. Dava para entender sobre o que versavam. Era corrupção e/ou política.

Agora, o que assusta é inexistência de uma motivação específica claramente definida, a amplitude das ações, a multiplicidade de alvos e a tentativa do governo de abafar o caso dando a ele uma conotação de futrica eleitoral.

Evidente que Dilma Rousseff sabe do que se trata quando ouve dizer que 140 pessoas tiveram o sigilo fiscal violado numa delegacia da Receita em cidade das cercanias de São Paulo.

Sabe que estamos diante de algo que pode ser qualquer coisa, menos o que alega: mero factoide, "prova do desespero" da oposição.

Como "mãe do povo", coordenadora do governo e responsável por tudo de maravilhoso que há no Brasil, Dilma deveria ser a primeira - depois do presidente Lula - a se preocupar com o fato de 140 cidadãos terem tido sua segurança institucional violada numa dependência do Estado.

No lugar disso, só faz repetir o mantra da candidata ofendida. Pode ser conveniente, mas não é um acinte?

Assim como soa a provocação ao discernimento alheio a proteção da Receita Federal aos investigados e a tentativa de "vender" a versão fantasiosa sobre a venda de sigilo no mercado negro de informações.

A atitude do governo alimenta a suspeita de dolo. Natural seria que as autoridades se levantassem em defesa da preservação dos direitos e garantias individuais.

Nesta altura, embora seja relevante, não é realmente o mais importante a filiação partidária dos agredidos.

Eduardo Jorge, Ana Maria Braga, Ricardo Sérgio, a família dona das Casas Bahia, tanto faz.

Foram eles, mas poderia ser qualquer um de nós. Quem, aliás, garante que não seremos os próximos a constar de um rol de pessoas vilipendiadas nas mãos de um Estado leviano?

A questão vai muito além do ato eleitoral, é um caso grave de insegurança institucional, pois não se sabe de onde vem isso, aonde vai parar, quem são os responsáveis, como agem e o que pretendem com essa manipulação que cassa a cidadania e espalha insegurança.

Digno. Aloizio Mercadante indigna-se com os modos - de fato indignos - de Tiririca no horário eleitoral, mas convive sem indignação com as indignidades de companheiros de "base" no Senado.

“O que sobrou”

Juca Kfouri, UOL, 30/09/2010  


O presidente do Corinthians disse que a CBF aprovou o projeto sem vê-lo, graças à credibilidade do clube.
O governador de São Paulo disse, agora há pouco, que Itaquera foi “o que sobrou”.
O prefeito admitiu que será preciso mais dinheiro do que os orçados R$ 300 milhões para que o estádio receba a abertura da Copa do Mundo, uns R$ 180 milhões a mais.
O Morumbi foi objeto de três inspeções físicas da Fifa e mandou  quase três dezenas de relatórios e dele se exigiram R$ 650 milhões para fazer sua reforma.
Mas o estádio corintiano, dizem, custará menos que a reforma do são-paulino!
Sem, é claro, por enquanto, nenhuma inspeção ou relatório.
Embora falte quase tudo na região de Itaquera.
Por mais generosa que seja a empreiteira que erguerá a arena, é óbvio que o agrado ao presidente da República será recompensado no futuro governo.
Como é evidente que a aliança tucano/demo, que quer salvar os anéis na eleição estadual porque a federal está perdida,  está fazendo de tudo para tirar o impacto do anúncio que seria feito amanhã com Lula no Parque São Jorge.
Por isso a visita do governador tucano e do prefeito demo ao terreno onde se construirá o estádio para 48 mil torcedores, que serão, graças às arquibancadas retráteis, provisórias,  65 mil para a abertura da Copa.

Presente

CBF impõe sua vontade, e governo paulista aceita estádio do Corinthians, que seria bancado por empreiteira, como palco do Mundial de 2014


EVANDRO SPINELLI e PAULO COBOS, Folha de S. Paulo

28/09/2010

CBF, Governo e Prefeitura de São Paulo bateram o martelo. E a arena paulistana para a Copa do Mundo será em um estádio do Corinthians, que ainda é só um projeto.
Numa reunião no Rio, Ricardo Teixeira, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Alberto Goldman acertaram que a arena que o quase centenário clube do Parque São Jorge pretende erguer, em Itaquera, na Zona Leste, será a casa da cidade no Mundial de 2014, sendo também o palco da abertura.
Para isso, terá que alterar o seu até agora misterioso projeto. "O Corinthians vai anunciar nos próximos dias um estádio para 48 mil pessoas", disse à Folha, no início da noite de ontem, Andres Sanchez, presidente do clube. A Fifa exige pelo menos 60 mil lugares para o jogo que abre a Copa.
Só que o cartola diz que o projeto pode ser revisto por causa do Mundial. "Se a cidade achar que é necessário para abrir a Copa, vamos conversar", disse Andres.

SEM LULA
Mesmo confirmando que o acerto sobre o estádio paulistano estava feito, a CBF dizia no fim da tarde que Kassab (DEM) e Goldman (PSDB), aliados na eleição presidencial, eram as pessoas que deveriam anunciar Itaquera.
E o anúncio oficial veio por meio de nota conjunta assinada por Kassab, Goldman e Teixeira. A nota afirma que a proposta de usar o futuro estádio corintiano foi da CBF.
Prefeito e governador, segundo a nota, aceitaram a ideia, com o compromisso de não investirem dinheiro público no projeto -ambos levaram para a reunião novamente o Morumbi como única alternativa paulistana.
Ao fazerem a divulgação, prefeito e governador tiram a possibilidade de o presidente Lula capitalizar a divulgação do estádio corintiano para a Copa na próxima terça-feira, quando o petista vai ao Parque São Jorge para ser homenageado pelo Clube dos 13.
Conforme a Folha publicou nesta semana, Lula sugeriu à empreiteira Odebrecht a construção do estádio para o clube -o presidente é um corintiano fanático. Pessoas próximas a Andres Sanchez dizem que ele pretende contrair um empréstimo de longo prazo com o BNDES.
Mas, segundo gente da CBF, será mesmo a empreiteira a responsável pela obra, que deve custar pelo menos R$ 300 milhões, isso na configuração para 48 mil pessoas. A confederação trabalha apenas com a hipótese de que o estádio de Itaquera terá mais de 60 mil lugares.

QUEM PAGA
A nota das autoridades não diz quem banca o estádio, apenas que não haverá dinheiro público na empreitada -como Kassab e Goldman reiteraram várias vezes nos últimos meses.
O terreno em que o estádio será construído é onde hoje se situa o CT usado pelas categorias de base do Corinthians, que ocupa apenas parte da área. O clube já providenciou a mudança dessas equipes para um outro centro de treinamento, na rodovia Ayrton Senna.
O estádio paulistano para a Copa fica a menos de um quilômetro da estação Itaquera da linha 3 do metrô.
E também numa área bastante povoada, com infraestrutura ruim -o acesso é apenas pela Radial Leste, constantemente congestionada.
O CT corintiano virou notícia policial no ano passado. Sete ladrões renderam quase 40 jogadores da base do clube antes de levarem notebooks, celulares e relógios.

A oligarquia de esquerda



O jargão "por uma sociedade mais justa" pode ser falado pelo pior dos canalhas

Luiz Felipe Pondé/Folha de S. Paulo
30/09/2010

VOCÊ ACREDITA em justiça social? Tenho minhas dúvidas. Engasgou? Como pode alguém não crer em justiça social? Calma, já explico. Quem em sã consciência seria contra uma vida "menos ruim"? Não eu. Mas cuidado: o jargão "por uma sociedade mais justa" pode ser falado pelo pior dos canalhas. Assim como dizer "vou fazer mais escolas", dizer "sou por uma sociedade mais justa" pode ser golpe.
Aliás, que invasão de privacidade é essa propaganda política gratuita na mídia, não? O desgraçado comum, indo pro trabalho no trânsito, querendo um pouco de música pra aliviar seu dia a dia, é obrigado a ouvir a palhaçada sem graça dos candidatos. Ou o blablablá compenetrado de quem se acha sério e acredita que sou obrigado a ouvi-lo.
Mas voltando à justiça social, proponho a leitura do filósofo escocês David Hume (século 18), "An Enquiry Concerning the Principles of Morals, Section III". Cético e irônico, Hume foi um dos maiores filósofos modernos. É conhecida sua ironia para com a ideia de justiça social. Ele a comparava aos delírios dos cristãos puritanos de sua época em busca de uma vida pura. Para Hume, os defensores de um "critério racional" de justiça social eram tão fanáticos quanto os fanáticos da fé.
Sua crítica visava a possibilidade de nós termos critérios claros do que seria justo socialmente. Mas ele também duvidava de quem estabeleceria essa justiça "criteriosa" e de como se estabeleceria esse paraíso de justiça social no mundo. Se você falar em educação e saúde, é fácil, mas e quando vamos além disso no "projeto de justiça social"? Aqui é que a coisa pega.
Mas antes da pergunta "o que é justiça social?", podemos perguntar quem seriam "os paladinos da justiça social". Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da "matéria bruta da infelicidade humana", ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio "em nome da justiça social"? Humm...
A semelhança dos hipócritas da fé que falavam em nome da justiça divina para roubar sua alma, esses hipócritas falariam em nome da justiça social para roubar você. Ambas abstratas e inefáveis, por isso mesmo excelentes ferramentas para aproveitadores e mentirosos, as justiças divina e social seriam armas poderosas de retórica autoritária e mau-caráter.
Suspeito de que se Hume vivesse hoje entre nós, faria críticas semelhantes à oligarquia de esquerda que se apoderou da máquina do governo brasileiro manipulando uma linguagem de "justiça social": controle da mídia, das escolas, dos direitos autorais, das opiniões, da distribuição de vagas nas universidades, tudo em nome da "justiça social". Ataca-se assim, o coração da vida inteligente: o pensamento e suas formas materiais de produção e distribuição.
A tendência autoritária da política nacional espanta as almas menos cegas ou menos hipócritas. A oligarquia de esquerda associa as práticas das velhas oligarquias ao maior estelionato da história política moderna: a ideia de fazer justiça social a custa do trabalho (econômico e intelectual) alheio.
Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.
Instalando-se num ambiente antes ocupado pela oligarquia nordestina, brutal e coronelista, e sua aliada, a chique oligarquia industrial paulista, os "paladinos da justiça social" se apoderam dos mecanismos de controle da sociedade e passam a produzir sucessores e sucessoras tirando-os da cartola, fazendo uso da mais abusiva retórica e máquina de propaganda.
Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas "sua casa". Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da "justiça social" ela silenciará todos.