quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Collor e marajá resistem 20 anos depois

Barros continua na boa vida e hoje é vizinho do ex-presidente, que em 1989 o tomou como mote de campanha

Vannildo Mendes, BRASÍLIA
 
Com uma aposentadoria de cerca de R$ 25 mil mensais, somada à renda do seu escritório de advocacia, cujo valor não revela, o alagoano Luiz Gonzaga Mendes de Barros leva o que se pode chamar de uma vida de marajá nos padrões locais. Ele mora na aprazível praia de Jatiúca, em Maceió, tem fazenda, carro importado, viaja pelo País e o mundo sem embaraços e desfruta de prazeres proibidos para os cidadãos comuns, como, por exemplo, fumar tabaco aromatizado importado em cachimbos cromados e torrar generosas somas em mesas de pôquer.

Barros foi transformado em marajá mais famoso do Brasil na campanha eleitoral de 1989, após ser apontado pelo então candidato Fernando Collor como modelo de servidor público parasita, que ganha muito, trabalha pouco e vive cercado de mordomias. Na época ele recebia o equivalente a R$ 45 mil, mais que o dobro do teto de então. Foi acusado por Collor, que se elegeu com o discurso de caçador de marajás, de fabricar leis em benefício próprio na Assembleia Legislativa, onde era consultor jurídico. Barros teve o salário congelado em um quinto do valor e foi alvo de execração pública no País.

Debochado, ele se deixou fotografar com uma caixa de isopor no dia em que chegava à Assembleia "para receber o salário congelado", como explicou na ocasião. A imagem correu o País e só reforçou o prestígio do caçador de marajás, que acabou eleito no dia 17 de dezembro de 1989 - exatos 20 anos completados hoje -, em apertada disputa com o petista Luiz Inácio Lula da Silva. O que vem a seguir é de amplo conhecimento: acusado de envolvimento num esquema de corrupção comandado por seu caixa de campanha, Paulo César Farias, o PC, Collor acabou afastado do cargo em meio a um processo de impeachment e amargou anos de ostracismo.

Só recentemente o ex-presidente voltou à cena política, após se eleger, em 2006, senador por Alagoas. Barros teve trajetória inversa: descongelou o salário imediatamente e aos poucos recuperou seu valor integral em todas as instâncias da Justiça, inclusive no Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje com 75 anos, deu a volta por cima, tornou-se celebridade requisitada para palestras e entrevistas e agora virou tema de livro. Por ironia do destino, os dois dividem atualmente vizinhança no bairro de Jatiúca, que alguns sugerem mudar o nome para Carandiru. Barros garante que a sugestão não é dele.

IRONIA

O livro A Vez da Caça, produção independente de 306 páginas, descreve o outro lado da trajetória de Barros, um personagem instigante, político astuto e advogado de humor ácido, que durante cinco décadas viveu no epicentro dos principais acontecimentos de Alagoas e do País. Quase no nirvana, hoje ele se dá ao luxo de trabalhar quando quer e para quem quer. "Não dependo de conchavos espúrios para sobreviver", observa ele, no seu estilo mais característico, a ironia.

Há quem diga, porém, que Barros blefa. Na verdade, ele também perdeu muito com o episódio e não foi só a renda. Boêmio e extravagante, ele costumava desfilar pelas ruas de Maceió pilotando um Camaro de luxo, modelo importado da GM, o qual trocava todos os anos. Na garagem, sempre tinha pelo menos mais dois carrões. Hoje, contenta-se com um Santa Fé, da Hyundai, que custa em torno de R$ 120 mil.

Do glamour do passado, ele conserva o hábito de usar terno de linho branco, sempre impecável e fumar cachimbo aromatizado importado. Também lhe teriam minguado o prestígio político e os ganhos do escritório de advocacia, antes um dos mais procurados do Estado. "Acho que o apogeu já passou e ele leva uma vida confortável, mas sem exageros", resumiu o autor do livro, o jornalista Joaldo Cavalcante. "Hoje ele é um marajá de calça curta", resume.

Mas Barros não dá o braço a torcer e assim define o desfecho do embate: "Collor me levou com ele para o palco nacional. Ele saiu daquele jeito, enxovalhado pela mídia como ladrão - aliás, a mesma mídia que o consagrara como salvador da pátria. Eu ganhei a guerra, recebi os atrasados e me aposentei como marajá."

Com prefácio de Audálio Dantas - escritor, jornalista e ex-deputado, também alagoano -, o livro, lançado em junho apenas em Alagoas, esgotou a primeira edição. O autor procura uma editora que lhe permita expandir a venda a outros Estados, principalmente do Nordeste, onde garante que tem sido grande o interesse de leitores. "Lideramos as vendas em Maceió em agosto e setembro, mesmo disputando com os títulos de autoajuda", comemorou Cavalcante. 
 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Coisas de estarrecer


Editorial da Folha de São Paulo, 10/12/2009


“AS IMAGENS são estarrecedoras. Muito duras, muito claras”. São palavras da ministra Dilma Rousseff a respeito das gravações que flagraram o esquema de distribuição de propinas patrocinado pelo governo de José Roberto Arruda, do DEM, no Distrito Federal. A candidata petista à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se disse ainda favorável a leis mais duras e cobrou agilidade da Justiça quando há “inequivocamente provas de corrupção”.
Até aqui, seria difícil discordar. Abundam cenas estarrecedoras na política nacional, sem que a sociedade receba da Justiça respostas compatíveis à gravidade e à extensão dos escândalos que envolvem o patrimônio público.
Dilma, porém, que chegava a uma festa com mais de mil convidados organizada para celebrar os 30 anos do PT, aproveitou a ocasião para ressalvar que não há “provas contundentes” contra petistas que respondem a processo no escândalo do mensalão.
Não é de hoje que o alto comando do PT procura se aproveitar da popularidade de Lula para tentar reescrever a história, apagando crimes a seu favor. Retorna, agora, a fábula de que o mensalão petista, um esquema nacional de compra de apoio político capitaneado pela cúpula da legenda, não passou de recolhimento de “recursos não contabilizados” de campanha.
Ninguém com memória e informação cairia nessa esparrela. Vale recordar o que havia de “estarrecedor” no mensalão petista. A começar pelo uso indevido do dinheiro público.
O Banco Popular é só um -e bom- exemplo. Criado, no Banco do Brasil, para emprestar a pessoas de baixa renda, durante um ano e sete meses, sob a gestão de Ivan Guimarães, conseguiu a proeza de gastar mais em publicidade (R$ 24 milhões) do que em empréstimos (R$ 20 milhões). A empresa que se beneficiou da publicidade, sem que se tenha feito nenhuma licitação, foi a DNA de Marcos Valério.
Seria o caso de recordar ainda outros exemplos “de estarrecer” envolvendo este governo: a procissão de deputados, petistas e aliados, que se formou na boca do caixa do Banco Rural para receber quantias várias de mensalão; o jipe que uma empresa beneficiada por contrato milionário da Petrobras deu de presente a Silvio Pereira, ex-secretário-geral do partido; o dinheiro na cueca com que foi flagrado um assessor do irmão de José Genoino, então presidente do PT; a violação do sigilo do caseiro que denunciou atividades envolvendo Antonio Palocci -a lista de escândalos graves é longa.
Poderia ainda incluir o caso dos “aloprados”, quando, na campanha de 2006, um grupo de petistas foi flagrado com malas de dinheiro sujo, numa operação para atingir a campanha tucana.
Se a vida partidária se nivelou por baixo e os costumes políticos estão degradados, o governo Lula, por ação e conivência, é um dos grandes responsáveis. É bom ter isso em mente para que não se realize a profecia de Delúbio Soares, para quem o mensalão ainda iria virar “piada de salão”.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Na festa do PT, Dilma condena "esquema" do DEM


VERA ROSA - Agencia Estado
 
Pré-candidata do PT à Presidência, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que o escândalo do mensalão no Distrito Federal "compromete" o DEM. Estrela da festa organizada pelo PT para comemorar os 30 anos do partido, Dilma definiu como "estarrecedoras" as imagens em que o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, deputados e secretários aparecem recebendo dinheiro, mas não quis associar o escândalo ao PSDB.
"Olho essa questão com muita cautela, mas acredito que compromete o DEM. Quanto ao PSDB, não tenho como afirmar isso", disse, sem querer comprar briga com o governador José Serra, seu principal adversário na disputa ao Planalto.
Apesar de condenar com veemência o "mensalão do DEM", defendendo "punição mais rápida" quando as provas de corrupção são "inequívocas", Dilma defendeu os petistas que são réus no processo que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao chegar à festa que homenageou ex-presidentes do PT - inclusive os que tiveram os nomes envolvidos no escândalo do mensalão de 2005, como o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino (SP) -, Dilma disse que os dois episódios são muito diferentes. "Não há provas contundentes contra eles, que não foram sequer julgados", insistiu Dilma. "No caso do DEM, as imagens são estarrecedoras, muito claras." Na semana passada, o presidente Lula havia dito que as cenas "não falam por si só". 
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Secretários de Arruda reassumem mandato para barrar impeachment



Leandro Colon, BRASÍLIA

Acuado pelas denúncias de envolvimento em corrupção, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), tenta agora controlar a Câmara Legislativa para salvar o mandato. Para tanto, mandou de volta para a Casa dois deputados tarimbados de sua tropa de choque: Eliana Pedrosa, do Desenvolvimento Social, e Paulo Roriz, da Habitação, ambos do DEM. Eles tentarão assumir postos estratégicos na Câmara.

Eliana é fiel escudeira de Arruda. Empresas de sua família aparecem na planilha de caixa 2 da campanha de Arruda - revelada pelo Estado na sexta-feira - e, também, em contratos com o governo do DF. Já Paulo Roriz, sobrinho do ex-governador Joaquim Roriz, comanda uma secretaria sob suspeita de irregularidades - José Luiz Naves, presidente de um órgão vinculado à pasta da Habitação, foi pego num vídeo recebendo propina.

Ontem, a assessoria de Eliana confirmou o pedido de exoneração do cargo e seu retorno à Câmara. Na volta, tentará presidir a Comissão de Constituição e Justiça, posto estratégico para analisar pedidos de impeachment contra Arruda, suspeito de montar o "mensalão do DEM" em Brasília.

Outra opção para o governador controlar a Câmara é Eliana se candidatar à presidência da Casa, caso o atual presidente Leonardo Prudente (DEM) renuncie ao mandato. Ele foi flagrado em vídeo colocando dinheiro oriundo de propina nas meias, bolsos e paletós. Prudente está afastado do cargo.

Eliana e Paulo Roriz deverão comandar a tropa de choque do governador, já que a líder do governo, Eurides Brito (PMDB), permanece, informalmente, afastada das funções políticas depois da revelação do vídeo em que aparece recebendo dinheiro vivo das mãos de Durval Barbosa, ex-secretário de Relações Institucionais do governo e delator à Polícia Federal de todo o esquema no governo Arruda.

No sábado, o Estado mostrou que duas empresas ligadas a Eliana aparecem no suposto caixa 2 de Arruda. A Esparta Segurança, de um filho dela, teria ajudado com pelo menos R$ 50 mil. Posteriormente, a empresa fechou em outubro um contrato emergencial, sem licitação, com o governo do DF. Uma nota de R$ 4,8 milhões foi emitida no dia 29 de outubro. No caixa 2, surge ainda o nome "Dinâmica". Uma irmã de Eliana tem empresa com esse nome. Desde 2007, R$ 67 milhões já foram repassados à irmã da deputada.

CPI

Além de fortalecer sua base, Arruda tem operado para controlar a CPI que investigará as denúncias, reveladas com a Operação Caixa de Pandora, da PF. O governador pediu aos aliados que formassem 4 blocos com 14 deputados distribuídos entre eles. Como o regimento prevê o critério de proporcionalidade para definir as vagas da CPI, a formação dos blocos garante a hegemonia para o grupo de Arruda.

A Câmara pode iniciar hoje a análise dos processos contra o governador, dependendo do acordo que seria negociado com os manifestantes que ocupam o plenário desde a semana passada. A Polícia Militar chegou a preparar uma operação para retirar o grupo, mas deputados de PT e PDT pediram mais um dia para solução negociada.

Leia

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

"Minha religião não me permite mentir"

FÁBIO AMATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CARAGUATATUBA

O eletricista João Batista dos Santos, ex-militante do MEP (Movimento pela Emancipação do Proletariado) e um dos homens que estiveram presos com o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva em 1980, durante a ditadura militar (1964-1985), chamou de "um horror" o artigo do colunista César Benjamin, publicado pela Folha na semana passada.
Ao ser questionado se, conforme Benjamin relata ter ouvido de Lula, o então sindicalista tentou "subjugá-lo", num contexto sexual, quando foram companheiros de cela, Santos declarou: "Não tenho nada para comentar sobre o assunto".
No artigo "Os filhos do Brasil", Benjamin relatou um comentário que diz ter ouvido do próprio Lula, então candidato nas eleições presidenciais de 1994. Segundo Benjamin, naquela época filiado ao PT, Lula afirmou, numa reunião da campanha, que, no período em que esteve preso no Dops, em 1980, tentou "subjugar" um companheiro chamado por ele de "menino do MEP", cujo nome não foi citado.
Santos recebeu a reportagem da Folha no final da noite de domingo em sua casa, em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, onde vive há cerca de um ano e dez meses com a mulher e dois de seus oito filhos. Ele não permitiu que a entrevista fosse gravada nem aceitou ser fotografado.
A reportagem chegou à cidade no sábado e tentava ouvi-lo desde então. No início da madrugada de domingo, Santos fez o primeiro contato, por e-mail. Na mensagem, disse que havia outros "companheiros do MEP" naquela cela do Dops e, portanto, não entendia o motivo de o jornal procurá-lo.
Santos escreveu ainda no e-mail que não tinha nada a dizer sobre o episódio narrado por Benjamin e que estava "convertido em uma religião que não me permite mentir". Finalizou o texto dizendo que ficou "muito emocionado" com os relatos de Benjamin sobre o tempo em que ficou preso na ditadura, "sendo que aqueles mais ferozes da prisão foram amigáveis para com ele".
No texto de sexta-feira, Benjamin relatou sua experiência na prisão durante a ditadura e contou que não foi molestado pelos presos comuns.
Na entrevista à Folha, que durou cerca de 40 minutos, Santos, 60 anos, mudou a versão e afirmou que era o único integrante do MEP entre os homens presos na cela do Dops em que também estava Lula. Disse que continua filiado ao PT, mas abandonou a militância após se mudar para o litoral.
Santos disse que soube do artigo de Benjamin no dia seguinte à sua publicação, quando passou a receber telefonemas de jornalistas e antigos companheiros. Segundo ele, a situação foi "constrangedora".
Em seguida, contou que nasceu na cidade de Cristina (411 km ao sul Belo Horizonte), onde trabalhou como agricultor nas terras da família antes de se mudar para a casa de parentes em São José dos Campos (SP), por volta dos 17 anos.
Santos disse que ficou pouco tempo em São José e se mudou para São Bernardo (ABC paulista), onde se tornou metalúrgico. Na década de 1970, teve contato com o MEP, organização de esquerda que lutou contra a ditadura e, mais tarde, disse que ajudou a fundar o PT.
Segundo ele, sua função no MEP era "fazer a conscientização política" de trabalhadores em algumas fábricas da cidade.
Além dos 30 dias de prisão em 1980, disse que já havia passado um período de dois dias preso no Dops, em 1978. Quando deixou a prisão pela segunda vez, mudou-se novamente para São José dos Campos e foi "cuidar da vida." Militou ativamente pelo PT e, em 1983, ajudou a eleger um dos 14 irmãos, Braz Cândido Santos, hoje com 62 anos, vereador na cidade.
Em 2003, obteve a anistia e, há cerca de um ano e dez meses, mudou-se para o litoral.
Segundo o site do Ministério da Justiça, ele teve deferido pedido em 30 de abril de 2003 para receber remuneração mensal de R$ 2.030,70.
O anistiado disse que não conhece Benjamin. E afirmou acreditar que Lula "deve estar chateado" com o relato feito pelo colunista no artigo. Santos se negou a fazer qualquer comentário sobre o presidente ou o seu governo. O anistiado falou que voltou a encontrar o ex-companheiro de cela apenas uma outra vez, antes da vitória nas eleições de 2002, mas não soube precisar a data.
Para Santos, o jornal deveria tê-lo procurado antes da publicação do artigo.
Santos pediu que fosse publicado que ele conheceu o publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira, morto em 2007, quando prestou serviços em uma granja mantida pela família em São José dos Campos, na década de 1990. Segundo ele, nas conversas entre os dois, o publisher elogiava Lula e se mostrava simpático a um governo do petista.
Ele também pediu que fosse publicada sua declaração de que os herdeiros de Octavio Frias de Oliveira na Folha "não seguem o exemplo do pai." Segundo Santos, se o publisher ainda estivesse no controle do jornal "este artigo não teria sido publicado".
A mulher de Santos, Márcia Cristina Muniz, disse que, quando o marido falou de Lula, "foi sempre de maneira positiva", e que nunca tinha ouvido relatos sobre uma possível tentativa de abuso na prisão. Criticou ainda o artigo, que chamou de "baixaria", e disse temer que os filhos, em idade escolar, possam ser vítimas de chacotas por parte dos colegas.
Leia (assinante)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Construtora transforma calçada em pátio de obras

Blog de Mílton Jung

A conversa com o ex-prefeito de Bogotá (Colômbia), Enrique Peñalosa, inspirou o repórter Fernando Andrade, da CBN, no fim da tarde desta segunda-feira. Após o entusiasmo com as palavras de um dos colombianos responsáveis pela mudança radical na forma de tratar o cidadão naquela cidade, Fernando se deparou com a realidade paulistana. E escreveu este lamento para os leitores do blog:
“Após cobrir o Seminário Transportes para Cidades Melhores na USP, nesta segunda-feira, no qual o ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia, Enrique Peñalosa, fez excelente apresentação mostrando que para revitalizar áreas degradadas, primeiro se contrói calçadas, depois os parques e, por último, se asfalta as ruas, me lembrei da atitude de uma construtora que na zona norte de São Paulo.
Peñalosa ressaltou que a democracia de uma cidade se mede pelo tamanho da calçada. E ilustrou isso com fotos de calçadas de diversas capitais.
Aí, voltando pra casa, depois de descer do ônibus e seguir a pé o restante do trajeto – faço isso por opção e adoro meu “rolê” -, decidi fotografar como a incorporadora BrasilArt trata os pedestres. Há anos, o edifício de alto padrão de quatro dormitórios na rua Benta Pereira, 160 – Santa Teresinha vem sendo construído e há anos perdemos a calçada. Como é possível ver nas fotos, o impacto da obra na região foi enorme. Não seria melhor ter privilegiado os moradores, pedestres do bairro ?
Como isso não ocorreu até agora, mudo de calçada e continuo desviando dos cocôs dos cachorros do outro lado. Mas fica aqui meu protesto!”

Leia 

Lula, Delúbio e a Cigarilha


LULA MARQUES
Na cobertura jornalística do Palácio do Planalto, a notícia não repousa apenas na figura do presidente da República. Um fotógrafo que quer acompanhar a rotina jornalística de Brasília tem de ficar atento às pessoas que rodeiam o homem mais importante do Brasil. Não é raro assessores de governantes virarem o foco da mídia. Temos o exemplo do presidente Fernando Collor, que teve a maior crise de seu governo agravada com uma denúncia de seu ex-motorista Eriberto França (de que um Fiat Elba, usado a serviço de Collor, havia sido comprado com dinheiro de fonte obscura); ou de Getúlio Vargas, que se matou devido à confusão instalada em seu governo por seu chefe da guarda pessoal, Gregório Fortunato, que se envolveu em um atentado contra a vida de Carlos Lacerda, principal inimigo político de Vargas.
Esses seres que orbitam o governo muitas vezes tentam evitar que a imprensa exerça seu papel de vigilante; em alguns momentos, agem com se fossem donos do presidente do Brasil. Pensando nisso, dá uma certa nostalgia lembrar a tranqüilidade que era cobrir a Presidência da República antes da chegada de Lula ao poder. No passado, sabíamos que, em qualquer cerimônia onde o presidente estivesse, jornalistas e fotógrafos seriam tratados como profissionais. A situação que narro a seguir se passou no primeiro mandato do presidente Lula. Dá uma amostra do que enfrentamos no dia-a-dia da cobertura do governo PT - e como é importante observar os coadjuvantes do poder.
Chegamos ao pavilhão do parque da cidade de Brasília, para uma cerimônia que o presidente Lula teria com os membros do MST. Fomos recebidos pelos líderes do Movimento dos Sem Terra com o aviso de que não poderíamos entrar. As portas estavam fechadas e pediram para esperarmos do lado de fora do pavilhão, onde aconteceria a solenidade até a chegada do presidente. A reação inicial foi de incredulidade, mas decidimos esperar com paciência a chegada da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto - que, estranhamente, ainda não tinha dado sinal de vida. Sempre que se chega para qualquer cobertura presidencial, somos recebidos pelos assessores de imprensa e seguranças do presidente, que nos levam ao detector de metal e, depois, para o "baculejo", a revista do nosso equipamento. Só então somos liberados para o espaço pré-determinado pela assessoria de imprensa, com vista privilegiada para os fotógrafos. É essa a rotina.
Passado algum tempo, finalmente chegou um assessor e falou que tão logo o presidente entrasse no prédio, entraríamos atrás. Atitude nova na cobertura presidencial. Cabe aqui um parêntese para dar contexto à situação: o presidente adora chegar atrasado nas cerimônias e deixar todo mundo esperando, como a proverbial noiva que quer criar expectativa. Esperamos quase uma hora do lado de fora do pavilhão e os ânimos começaram a esquentar. Estávamos literalmente cercados e vigiados pelos membros do MST na entrada do local e não víamos motivo para sermos tratado assim. Quando olhamos para dentro do prédio, os poucos seguranças da Presidência organizavam um corredor polonês. Até aí, tudo bem, o presidente passa por dentro do corredor e a gente da imprensa pelo lado de fora, registrando os cumprimentos do presidente aos presentes. Não é novidade acontecer esse tipo de esquema nas visitas do chefe de Estado.
Quando chegou, ficamos cercados pelos membros do MST e não conseguimos registrar o desembarque, o que é grave para o pessoal que trabalha com imagem e irritante para os demais jornalistas. Foi o estopim para uma grande confusão. Começaram a nos empurrar. Nesse momento, ficamos nas mãos dos "seguranças do MST", que agiam com truculência e tentavam nos impedir de entrar no pavilhão. Gritamos pela assessoria
de imprensa, pedindo ajuda, mas nos deram as costas. A única preocupação deles era com o presidente.
Forçamos a entrada quando Lula já estava dentro do pavilhão e nos deparamos com uma situação insólita. Começaram a barrar nossa passagem - não os seguranças da Presidência, que sempre fazem esse papel, mas os participantes do congresso dos trabalhadores Sem Terra. Foi um empurra-empurra louco. Os fotógrafos querendo registrar a chegada do presidente e os manifestantes do Movimento dos Sem Terra levantando as mãos para impedir o registro.
Fotógrafos e cinegrafistas sempre agem da mesma forma, nessas horas. Cada um corre para um lado e alguém fura o cerco. Driblamos o MST, mas caímos no meio do corredor polonês de seguranças e atrás do presidente. Quando tentamos chegar perto de Lula, que já estava cumprimentando os presentes, sentimos o desprezo com que a organização do Palácio do Planalto tratava a imprensa credenciada, ao nos deixar nas mãos dos "seguranças do MST". Parecia que tinham dado uma carta branca para os sem terra baterem o quanto quisessem e tentassem quebrar nossos equipamentos.
A gente reagiu, claro. Mas o que mais me deixou indignado foi estar naquela situação e ver os seguranças e um assessor de imprensa se divertindo à nossa custa. Não faziam nada para acabar com o tumulto, só riam da nossa cara. Passei a fotografar os colegas sendo agredidos. Só que, a cada foto que fazia, vinham três ou quatro sem terra em cima de mim para impedir. Quebraram meu flash e levei alguns safanões.
Ficamos quase cinco minutos na batalha campal. Resultado da cobertura: vários flashes quebrados e alguns cinegrafistas de olho roxo. Os que trabalham com uma pesada câmera do ombro perdem mobilidade na hora de se defender e viram alvo fácil para covardes.
O presidente Lula chegou ao palco de dois metros de altura. Começamos a nos organizar, mas não tínhamos local marcado. Acabamos ficando na frente dos membros do MST, tampando a visão dos que queriam ver o presidente. Começou um novo empurra-empurra. Só que naquela hora estávamos todos juntos e decidimos não sair. Como a cerimônia não começava por causa da confusão, apareceram vários seguranças e o pessoal da assessoria de imprensa do Palácio para organizar a bagunça.
Aquele pavilhão ao meio-dia parece uma sauna. Além do calor, o cheiro de suor, misturado com cheiro de álcool e, àquela altura, também, a minha fome, me deixavam de estômago embrulhado. Acho que só não passei mal por não ter nada na barriga. Mas, além da confusão e da forma do governo se relacionar com a imprensa, a cerimônia, que começou com muito atraso, teria algo mais a revelar.
Vários ministros de Estado que estavam presentes começaram a discursar. Para o presidente não ficar entediado durante os discursos, sempre aparece um assessor para passar alguma informação. E apareceu mesmo um, até então desconhecido da grande imprensa: Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Na época, tentamos descobrir o porquê da sua presença na cerimônia; mas, como de hábito, o Palácio não respondeu.
Cerimônia tediosa, calor insuportável, cheiro horrível de muita gente espremida em pouco espaço, discursos intermináveis e o presidente ali sem fazer nada, quando Delúbio Soares chegou por trás do ministro Luiz Dulci e colocou uma cadeira para conversar com Lula. Puxação-de-saco explícita, Delúbio ofereceu uma cigarrilha holandesa para o presidente Lula, que não se fez de rogado. Para não fumar na frente da imprensa, abaixava atrás da cadeira como menino que está fazendo coisa errada e se escondia atrás do ministro, Luiz Dulci. Fumou várias vezes, depois ficou com aquela cara de paisagem, acreditando que tinha enganado a imprensa. Só que desta vez não escapou da minha lente.
Meses depois, estourou um caso de corrupção conhecido como "Mensalão", supostamente operado pelo publicitário Marcos Valério e pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o homem da cigarrilha do presidente. Tentaram desclassificar a amizade e intimidade de Delúbio com o presidente Lula, mas a seqüência de fotos do presidente fumando escondido, ao lado do tesoureiro do PT, valia mais que mil palavras. Essa série de imagens foi a mais lembrada e publicada pelos jornais na época do escândalo, que de tão marcante derrubou vários políticos influentes, como o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
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"Caçadores de Luz - Histórias de Fotojornalismo"
Autores: Sérgio Marques, Lula Marques e Alan Marques
Editora: Publifolha
Páginas: 240
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

Genro de Lula é absolvido; procurador recorre de decisão


JOSÉ MASCHIO
da Agência Folha, em Londrina
O procurador da República em Florianópolis, Marcelo da Mota, recorreu ao TRF-4 (Tribunal Regional Federal), de Porto Alegre, da decisão da juíza Ana Cristina Krämer, da 1ª Vara Federal Criminal de Florianópolis, que considerou nula as acusações contra 31 denunciados na Operação Influenza. A nulidade se deu, segundo a juíza, por causa de grampos ilegais, autorizados apenas pela Justiça estadual.
No processo, Marcelo da Mota havia solicitado o encaminhamento ao STF (Supremo Tribunal Federal) de continuidade nas investigações de pessoas com cargos públicos, com foro privilegiado, que apareciam nas gravações.
Genro de Lula aparece em grampo da PF
Justiça anula provas obtidas com grampos
Entre os políticos citados nas gravações estavam o deputado federal Décio Lima (PT-SC), o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique (PMDB), e o assessor parlamentar Marcelo Sato Rosa, que trabalha para a deputada estadual Ana Paula (PT), mulher de Décio Lima. Sato é casado com Lurian, filha do presidente Lula.
Nas gravações, feitas em 2008, o empresário Francisco Carlos Ramos --um dos presos na operação e denunciado pelo Ministério Público Federal-- aparecia pedindo favores a Lima e Sato, segundo a Polícia Federal. Luiz Henrique aprecia citado por interlocutores de diálogos grampeados.
''Se esses agentes políticos cometeram crime ou não, só a investigação em instância superior irá determinar'', afirmou o procurador de República

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Vídeo flagra presidente da Câmara do DF guardando dinheiro na meia

FERNANDA ODILLA
da Folha de S. Paulo, em Brasília

Imagens que teriam sido gravadas em 2006 mostram o presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Leonardo Prudente (DEM), recebendo dinheiro do então presidente da Codeplan (empresa do DF), Durval Barbosa. O vídeo está entre os cinco DVDs a que a Folha teve acesso e que fazem parte da investigação de um suposto esquema de pagamento de propina para parlamentares da base aliada do governo na Casa.
As imagens mostram o próprio Barbosa, que até sexta-feira era secretário de Relações Institucionais do governador do DF, José Roberto Arruda (DEM), entregando dinheiro a Prudente. Na sequência, o presidente da Câmara aparece guardando as cédulas nos bolsos do paletó e nas meias.

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Vídeo mostra governador do DF recebendo dinheiro

da Folha de S.Paulo, em Brasília

A Folha teve acesso neste sábado (28) a cinco DVDs, entre os quais um que mostra o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), recebendo dinheiro. O vídeo foi feito pelo então presidente da Codeplan (empresa do DF), Durval Barbosa, que era, até sexta-feira, secretário de Relações Institucionais de Arruda.
O secretário de Ordem Pública do DF, Roberto Giffoni, nega que o dinheiro seja propina. Seria uma colaboração recebida, em 2005, pelo então deputado José Roberto Arruda para financiar ações sociais, entre as quais a compra de panetones e brinquedos, alega.

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