terça-feira, 30 de março de 2010

Brazil's enabler of dictators - Washington Times


President Obama has received due attention for pandering to dictators across the globe. He has not been reproached, however, for embracing one of the leaders most effective at spreading the leftist gospel across Latin America. Last year, Mr. Obama called Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva "my champion." Mr. Lula has enjoyed an undeserved reputation as a moderate during his seven years in office and now is openly campaigning to be the next secretary-general of the United Nations. His accession to head the U.N. would be a dark day for freedom.
On Feb. 24, Mr. Lula arrived in Cuba and warmly embraced Fidel and Raul Castro, the dictators responsible for making that island nation into a prison. On the same day, Orlando Zapata Tamayo, a humble plumber who was declared a "prisoner of conscience" by Amnesty International, died in a Cuban jail. The political prisoner was serving a 10-year sentence for encouraging public assemblies in Havana to protest government oppression.
The timing was unfortunate for the myth of Lula the moderate. During a photo session with the Castros, the Brazilian president mocked Mr. Zapata's resistance and compared him to common criminals in Brazilian jails, grinning all the while. Despite the human-rights scandal in his midst, Mr. Lula - who touts himself as the leader of Brazilian "hyperdemocracy" - went ahead with a nearly $1 billion investment in Cuba and conducted secret meetings about Brazilian military cooperation with the communist state.
As his second term in office draws to a close at the end of this year, Mr. Lula is taking increasingly radical political positions that are deflating his bubble of international prestige. This is most glaring in his foreign policy, which coddles Islamist states such as Iran and is helping build up neighboring communist thugs such as Venezuela's Hugo Chavez and Bolivia's Evo Morales. Under Mr. Lula's direction, Brazil abstained from voting when the International Atomic Energy Agency censured Iran last year for prohibiting inspections of its nuclear facilities. His Foreign Ministry has signaled that it won't follow international consensus on sanctions against a nuclear Tehran. Last week, he ripped Israel while placing a wreath on the tomb of terrorist Yasser Arafat.
Mr. Lula claims his outreach to radicals is done in the name of dialogue. "I am infected by the peace virus," he likes to say. Talking leads to understanding, which leads to agreement and peace, the thinking goes. But talking also wastes time. The Obama administration has tried dialogue with the mullahs, but this has been to no avail while the day Iran becomes a nuclear-armed power ticks closer. If Mr. Lula is any kind of moderate at all, it is as a "useful moderate" to rogue regimes that undermine the cause of peace by trampling individual rights and expanding their power through illegal means. The prototype of the useful moderate was Alexander Kerensky, leader of pre-revolutionary Russia whose concessions to radicals paved the way for Vladimir Lenin's communist takeover.
The Kerenskian mentality causes as much harm as Leninism itself because by seeking conciliation rather than confrontation with an enemy, the opposition to radicalism is emasculated. Without Kerenskys, Leninists wouldn't have open roads for their advance. It is from that standpoint that one must contemplate who has benefited most from Mr. Lula da Silva's global popularity. If communist Cuba survives, it will be due more to diplomatic and economic support from the Kerenskyist Mr. Lula than the in-your-face Mr. Chavez, whose own ability to cling to power is aided by credibility gained through the Venezuelan-Brazilian alliance. Mr. Lula's high-profile backing for authoritarians in Bolivia and Ecuador helps demoralize the pro-democracy opposition there as it has in Venezuela.
On a popular Brazilian television program almost eight years ago, then-candidate Lula called me "the Miami shyster" because I wrote a series of articles denouncing his support of communist Cuba and his policies favoring the "axis of evil" in Latin America. His presidency has confirmed those early apprehensions.
While Americans are preoccupied by a crippling recession and trying to fight back growing government power, militant socialism is on the march in our own backyard in Latin America. No one has aided and abetted this leftist revolution more than the supposedly moderate Brazilian president.

Armando F. Valladares was U.S. ambassador to the U.N. Human Rights Commission during the Reagan and George H.W. Bush administrations. He spent 22 years in Cuba's political prisons.


VALLADARES: Brazil's enabler of dictators - Washington Times

sábado, 13 de março de 2010

Lula faz defesa explícita da repressão em Cuba

Editorial, Valor Econômico

Embalado pelo crescente prestígio de que desfruta no exterior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece estar disposto a pô-lo à prova. Ele poderá conseguir destruí-lo em pouco tempo, a julgar pela quantidade e qualidade das declarações que tem feito em tão curto espaço de tempo. Carismático e personalista, o presidente passa alegremente por cima das conveniências diplomáticas, com resultados potencialmente desastrosos. O ataque público feito por ele à greve de fome dos dissidentes cubanos, pouco depois de ter visitado o ditador cubano Fidel Castro e seu irmão Raul, é acintoso e aponta um rumo nocivo para a política externa brasileira, que mal tem conseguido acompanhar o imprevisível pragmatismo presidencial.

No exterior, o presidente Lula representa a democracia brasileira. É discutível que ele tenha que dar lições sobre os benefícios desse regime aos países de péssima reputação democrática que visita como chefe de Estado, ou aos que se alia por desejo, como a Venezuela de Hugo Chávez, ou Cuba, a última relíquia stalinista do planeta. Se não deve ou não quer fazer isso, com muito mais razão não deveria fazer o contrário e endossar aberrações cometidas por eles. Ainda mais em termos tão aviltantes quanto os que usou em relação aos dissidentes cubanos: "Greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para libertar pessoas", disse o presidente. "Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação". Líder político experiente, que sentiu a força de uma ditadura na própria pele, fez greve de fome e esteve dias na prisão, o presidente passou uma borracha no passado e parece ter experimentado a conversão frequente a quem chega ao poder - bandidos são todos os que se opõem à linha oficial, sempre justa. É assim com Fidel Castro, tem sido cada vez mais assim com Chávez na Venezuela.

Viúvas da revolução cubana ocupam postos no governo brasileiro e é natural que ainda encontrem no museu stalinista caribenho um ideal a seguir. A nostalgia autoritária agora parece ter contaminado o presidente, que nunca foi comunista e cujo governo não é exatamente de esquerda. Talvez continue em ação o mesmo mecanismo psicológico de compensação política que regeu seu mandato até agora: quanto mais abraça o "capitalismo" internamente, mais busca no exterior firmar suas credenciais esquerdistas, abandonadas por livre e espontânea vontade.

Quanto maior o prestígio do presidente Lula, maior é o desastre causado por declarações como as de Cuba. O contexto em que foram dadas seria um pesadelo para qualquer diplomacia que não estivesse extasiada pelos instintos políticos do presidente. O Brasil busca abrir o diálogo do Irã, de Mahmoud Ahmadinejad, com a comunidade internacional, que já se cansou de negociar e quer impor sanções ao país. A posição brasileira é bastante defensável enquanto se mantiver equidistante em relação aos dois lados. Foi essa imagem de neutralidade que tornou respeitada a diplomacia brasileira, e mantê-la não é trivial.

Quando recebe e conversa com Ahmadinejad e diz que concedeu audiência à secretária de Estado Hillary Clinton por "deferência", quando ela veio ao país discutir a questão iraniana, o presidente Lula dá sinais de parcialidade contraproducentes. Quando o governo americano para de hostilizar Cuba, o presidente brasileiro vai até a ilha elogiar seus ditadores e chamar opositores de bandidos. Quando Chávez pratica seus desmandos, o Brasil lhe dá tapas nas costas, enquanto faz vistas grossas aos ataques autoritários do casal Kirchner na Argentina. Não é preciso mais exemplos para que o papel de mediador neutro do país se desvaneça diante de uma política cada vez mais engajada.

A diplomacia brasileira tem de fazer ginásticas cada vez mais constrangedoras para justificar que um país democrático se alinhe a regimes autoritários. "Uma coisa é você defender, como nós defendemos, a democracia e os direitos humanos, outra coisa é você sair dando apoio a tudo quanto é dissidente", disse o chanceler Celso Amorim. É uma enorme desconversa e não se trata disso. Se para o governo o apoio aos dissidentes cubanos é impensável - e dada a amizade com os Castro, seria para ele mais fácil interceder a favor -, o mínimo que se poderia esperar é que não os condenasse.

Em defesa dos habitantes das Falklands

Contardo Calligaris, Folha de São Paulo

NA SEMANA retrasada, durante a Cúpula da América Latina e do Caribe, o presidente Lula perguntou: "Qual é a explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas? Qual a explicação política de as Nações Unidas já não terem tomado uma decisão dizendo: não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas e seja um país [a Grã-Bretanha] a 14 mil quilômetros de distância?".


Concluo que o Brasil está prestes a se lançar numa aventura militar audaciosa. Já devem existir planos para a invasão da Guiana Francesa: afinal, não se entende por que pertenceria à França, que está a 12 mil quilômetros de distância, enquanto basta olhar um mapa para constatar que é geograficamente brasileira (sem considerar que a bandeira da Guiana é verde e amarela).

Infelizmente, um ataque imediato comprometeria a entrega de nossas encomendas de armas francesas. Mas, se soubermos esperar, a guerra, tanto para os franceses quanto para os brasileiros, será uma ocasião maravilhosa de testar em combate os aviões Mirage (que, justamente, nunca foram testados).

Na espera da invasão da Guiana Francesa, a diplomacia brasileira poderá continuar se ilustrando. Bastará promover com coerência a tese defendida no caso das Malvinas: um território deve pertencer ao país que o engloba ou que lhe é mais próximo geograficamente.

A ilha de Pantelleria, erroneamente italiana, deve ser devolvida à Tunísia, cuja costa é bem mais perto da ilha do que a costa da Sicília.

Não faz sentido algum a ilha da Madeira ser portuguesa, visto que ela é situada na placa tectônica africana e mais próxima do Marrocos do que de Portugal.

O Marrocos deve também ser reintegrado na posse das Ilhas Canárias. Nesse caso, a Espanha está totalmente fora do páreo. Para disputar as Canárias ao Marrocos, só a Frente Polisário do Saara Ocidental.

Por que esses casos nos parecem ridículos, absurdos? Porque, em nosso foro íntimo, sabemos que as razões "geográficas, políticas e econômicas" de tal território pertencer a tal nação são irrisórias diante de um princípio que é infinitamente mais importante do que essas razões: as pessoas concretas que vivem num território devem poder escolher a qual comunidade de destino elas pertencem.

Há muitos casos em que a aplicação desse princípio é difícil e conflitiva, porque há territórios cujos habitantes não querem ou não podem constituir uma comunidade: Chipre é dividida entre gregos e turcos; a nação curda é dispersa entre Iraque, Irã e Turquia; fracassa a implementação da "solução de dois Estados" no Oriente Médio. E por aí vai.

Mas o caso das Malvinas é parecido com o da Madeira, o das Canárias etc. Desde o século 19, as "Malvinas" são habitadas só por pessoas que são e se consideram inglesas (sem minorias étnicas ou culturais). Como é possível desprezar a vontade explícita e coesa da população?

Na imprensa, sempre aparece esta perífrase: "As ilhas Malvinas, chamadas pelos britânicos de Falklands". É um enigma: tudo bem que Londres chame essas ilhas de Falklands, mas o que importa é que elas são chamadas de Falklands por todos os seus habitantes. Portanto o normal seria dizer: "As ilhas Falkland, chamadas pelos argentinos de Malvinas" (o que, acidentalmente, é bizarro, pois quem chamou essas ilhas de "Malouines" foram, no século 18, os franceses, originários do porto de Saint-Malô).

Espero que Argentina e Grã-Bretanha inventem jeitos de cooperar na exploração do petróleo das Falklands (se é que ele existe). Será no interesse de ambos e da própria população das ilhas.

No mais, no episódio que mencionei, o presidente Lula deve ter sido mal assessorado, pois, em regra, ele não é insensível ao destino das pessoas concretas. Em sua recente visita a Cuba, Lula não ousou defender os presos políticos cubanos; mais tarde, ele lamentou a morte de Orlando Zapata; anteontem, reviravolta: ele pediu respeito às decisões do governo cubano. Em suma, ele oscila entre uma bajulação do castrismo (saudade do que ele representou no passado) e a solidariedade com quem luta por direitos e liberdade.

Quem não mostrou solidariedade alguma foi o assessor do presidente, Marco Aurélio Garcia, que assim comentou, cinicamente, a morte de Zapata: "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro". Alguém dirá que é uma resposta "política", assim como seriam "políticas" as razões de apoiar as pretensões argentinas sobre as Falklands. Pode ser, mas, para mim, a única política que interessa é a que se preocupa com a vida concreta das pessoas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

???

Fernando Barros e Silva, Folha de São Paulo - 12/03/10
Os intelectuais de esquerda adoram um abaixo-assinado. Na luta pela redemocratização, ele foi um instrumento importante de mobilização da sociedade civil. Hoje, não se sabe ao certo o que seja (nem se existe) "a sociedade civil". E os intelectuais, sobretudo de esquerda, perderam em boa medida o protagonismo público.F
Ainda assim, vira e mexe há abaixo-assinados por aí. Alguns em torno de causas abrangentes e justas, outros que parecem só um cacoete de antigamente. Diante de tudo isso, devemos nos perguntar agora: onde está o abaixo-assinado?
Sim. Ou os intelectuais de esquerda não estão incomodados com a fala bestial de Lula sobre Cuba? O assunto não comove a ponto de solicitar um repúdio coletivo?
Seria demais exigir a retratação pública do presidente por igualar as vítimas de uma ditadura que liquidou seus opositores aos presos comuns de um país democrático?
Seria demais pressionar o governo brasileiro para que interceda em favor de dissidentes presos arbitrariamente e/ou a caminho da morte? Seria demais reafirmar (ou assumir, no caso de alguns) a defesa da democracia e dos direitos humanos como valores universais?
O silêncio de certa intelligentsia, que insiste em tratar Cuba como um caso à parte, uma ilha da fantasia rodeada de piratas, é tão cúmplice das atrocidades de Fidel e seu asseclas quanto a fala boçal de Lula.
Até quando a esquerda nativa (com exceções honrosas) vai encarar a crítica à tirania cubana como uma pauta da direita? Até quando irá confundir o justo apelo dos dissidentes com a "máfia de Miami"?
Até quando irão invocar avanços sociais hoje mais do que duvidosos como pretexto -aí, sim- para justificar os horrores do regime? O dissidente Guillermo Fariñas precisará morrer -ou nem isso bastará para romper a omissão criminosa?
A Paquetá vermelha que incendiou bons corações nos anos 60 não existe, não passa de uma quimera mumificada. Então, apesar do atraso: cadê, cadê o abaixo-assinado?

E o blog pergunta: onde está Chico Buarque?

A decepção internacional com Lula

Carlos Alberto Montaner, O Estado de São Paulo - 12/03/2010


Para Luiz Inácio Lula da Silva, os presos políticos cubanos são delinquentes como os piores criminosos encarcerados nas prisões do Brasil. Lula adotou, cruelmente, o ponto de vista de seu amigo Fidel Castro. Para ele, pedir eleições democráticas, emprestar livros proibidos e escrever em jornais estrangeiros - os "delitos" cometidos pelos 75 dissidentes presos em 2003, condenados a até 28 anos - equivale a matar, roubar ou sequestrar. Para Lula, Oscar Elías Biscet, um médico negro sentenciado a 25 anos por defender os direitos humanos e se opor ao aborto, é apenas um criminoso empedernido. Dentro de seu curioso código moral, é compreensível a morte do preso político Orlando Zapata ou a possível morte de Guillermo Fariñas, em greve de fome para pedir a libertação de 26 presos políticos doentes.

Os democratas cubanos não são os únicos decepcionados com o brasileiro. Na última etapa de seu governo, Lula está demolindo a boa imagem que desfrutou no começo. Recordo, há cerca de três anos, uma conversa que tive no Panamá com Jeb Bush, ex-governador da Flórida. Ele me disse que seu irmão George, então presidente dos EUA, tinha uma relação magnífica com Lula e estava convencido de que ele era um aliado leal. Isso me pareceu uma ingenuidade, mas não comentei a questão.

Alguns dias atrás, um ex-embaixador americano, que prefere o anonimato, me disse exatamente o contrário: "Todos nos equivocamos com Lula. Ele é um inimigo contumaz do Ocidente e, muito especialmente, dos EUA, embora trate de dissimulá-lo". E, em seguida, com certa indignação, criticou a cumplicidade do Brasil com o Irã no tema das sanções pelo desenvolvimento de armas nucleares, o apoio permanente a Hugo Chávez e a irresponsabilidade com que manejou a crise de Honduras ao conceder asilo a Manuel Zelaya na embaixada em Tegucigalpa, violando as regras da diplomacia internacional.

Na realidade, o comportamento de Lula não é surpreendente. Em 1990, quando o Muro de Berlim foi derrubado, o líder do Partido dos Trabalhadores apressou-se em criar o Fórum de São Paulo com Fidel Castro para coordenar a colaboração entre as forças violentas e antidemocráticas da América Latina. Ali estavam as guerrilhas das Farc e do ELN na Colômbia, partidos comunistas de outros tantos países, a FSLN da Nicarágua e o FMLN de El Salvador. Enquanto o mundo livre celebrava o desaparecimento da União Soviética e das ditaduras comunistas no Leste Europeu, Lula e Fidel recolhiam os escombros do marxismo violento para tratar de manter vigente o discurso político que conduziu a esse pesadelo, e estabeleciam uma cooperação internacional que substituísse a desvanecida liderança soviética na região.

No Brasil, sujeito a uma realidade política que não pôde modificar, Lula comporta-se como um democrata moderno e não se afastou substancialmente das diretrizes econômicas traçadas por Fernando Henrique Cardoso, mas no terreno internacional, onde afloram suas verdadeiras inclinações, sua conduta é a de um revolucionário terceiro-mundista dos anos 60.

De onde vem essa militância radical? A hipótese de um presidente latino-americano que o conhece bem, também decepcionado, aponta para sua ignorância: "Esse homem é de uma penosa fragilidade intelectual. Continua sendo um sindicalista preso à superstição da luta de classes. Não entende nenhum assunto complexo, carece de capacidade de fixar a atenção, tem lacunas culturais terríveis e por isso aceita a análise dos marxistas radicais que lhe explicaram a realidade como um combate entre bons e maus." Sua frase final, dita com tristeza, foi lapidar: "Parecia que Lula, com sua simpatia e pelo bom momento que seu país atravessa, converteria o Brasil na grande potência latino-americana. Falso. Ele destruiu essa possibilidade ao se alinhar com os Castro, Chávez e Ahmadinejad. Nenhum país sério confia mais no Brasil". Muito lamentável

Carlos Alberto Montaner é escritor cubano

quinta-feira, 11 de março de 2010

Ignomínia

Clóvis Rossi, Folha de São Paulo - 11/03/10

É uma ignomínia, uma completa ignomínia, a coleção de absurdos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou a respeito de Cuba, em entrevista à agência Associated Press.
Seria ignominioso em qualquer pessoa decente, mas se torna exponencial no caso de Lula, porque seus conceitos contra os dissidentes cubanos em greve de fome e a favor da ditadura acabam sendo uma condenação a seu próprio passado.
Ao equiparar a motivação (política) dos dissidentes a uma eventual ação similar dos criminosos de São Paulo, Lula está se declarando um ex-delinquente. Afinal, ele fez greve de fome, que agora repudia, e por motivos políticos.
Lula diz que é preciso "respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de deter as pessoas em função da legislação em Cuba".
Por que, então, não respeitou determinações da Justiça e do governo brasileiro no tempo em que era um líder sindical?
Pela simples e boa razão de que determinações de um poder judicial totalmente subordinado ao governo -e um governo ditatorial- não merecem respeito dos democratas. Nem aqui nem em Cuba.
A menos que Lula ache que há "boas" ditaduras e ditaduras "más".
Não há. O que há são valores universais: liberdades públicas, respeito aos direitos humanos -enfim, democracia. São princípios que organizam a convivência, os únicos decentes que o ser humano inventou até agora.
Em sendo assim, não há como discordar do preso político Guillermo Fariñas quando diz, como o fez a Flávia Marreiro, desta Folha, que Lula demonstrou seu "comprometimento com a tirania dos Castro".
Uma tirania que fez de Cuba o museu do fracasso do socialismo real, só louvado por três ou quatro intelectuais de quinta, que, sem público em seus próprios países, vêm à América Latina lamber as botas de tiranos e tiranetes de opereta.

Delírio autoritário

Dora Kramer, O Estado de São Paulo - 11/03/10


O senso de limite o presidente Luiz Inácio da Silva, é notório, perdeu há muito tempo. Para não retroceder no tempo à época em que comandava a oposição combatendo seus adversários na base do insulto, do ataque a tudo, aí incluídas ações de governo em favor do interesse coletivo, fiquemos com o período da Presidência durante o qual se notabilizou pela defesa das piores causas.
A noção do ridículo o presidente Luiz Inácio da Silva substituiu pela arte de consolidar identificação popular mediante um comportamento já comparado ao de animador de auditórios de espetáculos popularescos.
Ainda assim, construiu um ambiente de respeitabilidade externa em virtude de ter sabido semear e colher os frutos do terreno preparado por seus antecessores sem lhes dar o devido crédito.
Contou ponto também a favor de Lula o fato de ter reduzido ao mínimo das gafes inevitáveis – e que até serviram para compor o tipo – suas manifestações no exterior.
O presidente brasileiro não repete lá fora as performances internas. Deixa de lado os improvisos e, assim, evita os consequentes (propositais?) erros de linguagem, termos chulos e piadas de mau gosto.
Mais recentemente, no entanto, o presidente Lula tem dado sinais de que os altos índices de popularidade podem ter-lhe subtraído por completo a companhia da sensatez, além de ter reduzido a agudeza do instinto de sobrevivência que o faz se preservar do risco extremo e manter acesa a mítica.
A imprensa internacional retratou isso nas críticas feitas a ele quando da visita a Cuba no dia exato em que o dissidente Orlando Zapata morria depois de 85 dias de greve de fome em protestos pelas transgressões aos direitos humanos patrocinadas pelo regime dos irmãos Castro.
Lula não apenas confraternizou com a ditadura de maneira ousada, como depreciou ao limite da crueldade a ação dos dissidentes condenados, torturados e mortos por crime de opinião.
Que o presidente não se importa com princípios, ironizando quem se importa como adeptos do "principismo", e que defende apenas interesses, o Brasil todo sabe. São inúmeros os exemplos.
Internamente é a praxe. Lula só poderia ter tido a fidalguia de não mostrar esse lado ao mundo. Aos 25 anos de retomada democrática depois de quase três décadas de regime autoritário, o Brasil não merecia ser exposto assim. Como um país que elegeu e reelegeu um presidente da República que dá de ombros à luta pelo direito de se opor e ainda compara seus combatentes a criminosos comuns.
Os traficantes, assassinos e sequestradores do Brasil e os presos políticos de Cuba – ou de qualquer parte do mundo, por suposto – para Lula estão em igualdade de condições. Opositor é criminoso.
Ou não foi isso que ele disse quando afirmou: "Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação"? "Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos".
Uma manifestação de desapreço ao conceito de solidariedade mundial e de hostilidade à ação da Anistia Internacional, cujo trabalho é justamente se envolver, denunciar, protestar contra as agressões aos direitos humanos.
Graças a isso, durante a ditadura militar brasileira, os combatentes do regime – alguns atuais auxiliares de Lula, uma delas sua candidata a presidente – puderam levar notícias ao mundo do que se passava aqui.
O presidente Lula ultrapassou todos os limites do aceitável. Foi além de países democráticos que apoiaram ditaduras e que ainda mantêm relações comerciais e diplomáticas com regimes autoritários, mas nunca ousaram defender as razões dos ditadores, nem justificar suas ações, ignorar as atrocidades cometidas, acusar os dissidentes de criminosos, muito menos emprestar seu prestígio em defesa da autodeterminação dos déspotas amigos.
É de se perguntar o que acham a ministra Dilma Rousseff e os demais aliados, auxiliares, admiradores e seguidores do presidente Lula desse perfilhamento à tirania e dessa indiferença ao clamor pela liberdade. Por uma questão de conveniência calarão ou tergiversarão aludindo a um mal-entendido na interpretação das palavras. O mundo, entretanto, não será tão condescendente.

Matadores e censores: modelos ideiais?

Rolf Kuntz, O Estado de São Paulo - 11/03/10

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou mais uma vez sua simpatia pelos governos assassinos. Não o fez em segredo, mas numa entrevista à Associated Press (AP), quando comparou os presos políticos de Cuba aos homicidas, traficantes, estupradores e ladrões presos nas cadeias de São Paulo. Sua admiração pelos caudilhos e dirigentes autoritários não é novidade. A defesa dos matadores, como os irmãos Castro e o presidente do Irã, o enforcador de opositores Mahmoud Ahmadinejad, apenas mostra com total clareza a atração do Planalto pelo autoritarismo, até nas suas manifestações mais brutais.

Essa opção tem orientado as decisões políticas e econômicas da diplomacia brasileira, frequentemente com elevado custo para o País. Se um caudilho manda invadir instalações da Petrobrás e ameaça violar acordos comerciais, para que contestá-lo? Por que não aceitar barreiras comerciais impostas por um casal vizinho tão simpático e tão empenhado em amordaçar a imprensa de seu país? Por que não defender com uma fidelidade canina os interesses de Hugo Chávez na América Central e na porção norte da América do Sul? Por que não apoiar, na eleição para a chefia da Unesco, um ministro egípcio comprometido com a censura e conhecido pela promessa de queimar livros israelenses?

No caso da Unesco, a decisão do Itamaraty foi especialmente espantosa - para os menos informados sobre o governo Lula - porque um forte candidato era o brasileiro Márcio Barbosa, diretor adjunto da instituição. Respeitado internacionalmente, ele poderia, segundo analistas, obter o apoio de países de peso, como Estados Unidos, México, Argentina, Rússia, França, Índia e China. Diante da decisão do governo brasileiro, ele desistiu. O Itamaraty, além de pagar o vexame da escolha, engoliu mais uma derrota, porque foi eleita a diplomata búlgara Irina Bokova.

Mas a entrevista à AP foi preciosa porque deixou mais claros do que nunca os padrões de julgamento do presidente brasileiro. Além de igualar os presos políticos aos condenados por crimes comuns, ele equiparou os sistemas judiciais de Cuba e do Brasil. É preciso, segundo ele, respeitar as decisões da Justiça cubana, assim como se deve exigir respeito às decisões dos tribunais brasileiros.

Mas o Brasil ainda é um Estado de Direito. Seus tribunais devem pautar-se por critérios independentes do grupelho no poder. O processo inclui necessariamente o contraditório. Há um enorme arsenal de recursos processuais - amplo demais, até, na opinião de vários especialistas. Além disso, ninguém é legalmente punível por suas opiniões nem pela tentativa de organizar sindicatos ou partidos.

Para o presidente Lula, não há diferença relevante entre os dois sistemas. Portanto, não há diferença relevante entre um preso por crime de opinião ou de manifestação política e um condenado por homicídio, assalto, tráfico de drogas ou furto.

Mas o presidente é capaz de certas distinções. Segundo ele, a Justiça cubana é perfeitamente respeitável. A política de Cuba, também. Por isso seu governo mandou de volta a Havana, sem hesitação aparente, dois pugilistas, na época dos Jogos Pan-Americanos. Mas a Justiça italiana, como observou o cientista político José Augusto Guilhon de Albuquerque, não mereceu o mesmo respeito. Cesare Battisti, acolhido no Brasil como refugiado político, foi condenado pela Justiça da Itália não por crime político, mas por haver, segundo as conclusões do processo, participado de homicídios. Uma das vítimas foi um açougueiro.

Com sua entrevista, o presidente Lula forneceu mais um dado para quem deve decidir sobre as medidas propostas no famigerado decreto dos Direitos Humanos, com suas ameaças à liberdade de imprensa e a outros institutos essenciais à democracia. Forneceu informações valiosas, também, para quem ainda procura entender o significado de "Estado forte", na linguagem petista. Além disso, não há como desprezar esses dados quando se discutem projetos altamente propícios à centralização das decisões econômicas, como o do pré-sal e o da ressurreição de Telebrás.

O risco não está na criação de estatais, mas no aumento dos poderes do grupo no poder. Poderes maiores são especialmente perigosos quando os governantes confundem a oposição política e a divergência de opiniões com crimes como o homicídio, o roubo e o tráfico. Ahmadinejad e os irmãos Castro fazem essa confusão. Lula também, como agora se confirmou.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Lula compara preso político de Cuba aos bandidos de SP

Folha de S. Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu respeito às decisões do governo de Cuba e condenou o uso da greve de fome por dissidentes como instrumento para que eles sejam soltos, comparando-os a criminosos comuns.
- Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade - afirmou.
O dissidente Guillermo Fariñas, em greve de fome há 15 dias pela libertação de 26 presos, disse em entrevista a Flávia Marreiro, publicada nesta quarta-feira pela Folha que Lula é "cúmplice da tirania dos Castro": 'A maioria do povo cubano se sente traído por um presidente que um dia foi preso político'.
Em entrevista, Fariñas afirmou que "Lula agiu de má-fé" ao ir para Cuba pouco tempo depois do preso político Orlando Zapata Tamayo morrer, após passar 85 dias sem comer. "Parece que o poder fez que ele perdesse a memória. No passado, ele foi um perseguido político", disse. Para o dissidente tanto o governo cubano quanto os governos que o apoiam são responsáveis pela morte dos presos políticos.

Vítima farsesca

Editorial, Folha de São Paulo - 07/03/10

Com tese de que a "mídia" o persegue, PT mantém figurino autoritário e se faz de injustiçado para encobrir falência moral

O TRUQUE é velho, e sua repetição só indica o hábito petista de afetar ares de pureza em meio ao pragmatismo mais inescrupuloso. Em documento oficial, a Executiva Nacional do PT reeditou, quinta-feira, a tese de que há uma "guerra de extermínio" contra o partido. Posteriormente, amenizou os termos. A promover tal "guerra" estariam "amplos setores do empresariado, particularmente a mídia".
Mídia, no jargão corrente, significa todo jornal ou empresa de comunicação que não defenda figuras notórias do partido.
Como, por exemplo, o ex-ministro José Dirceu, beneficiário de uma contribuição de R$ 620 mil pela assessoria prestada a um grupo com interesse na reativação da Telebrás. Ou como os mensaleiros denunciados por quem era então aliado do governo, o deputado Roberto Jefferson; ou ainda os "aloprados" -termo que o presidente Lula foi o primeiro, aliás, a empregar- da campanha eleitoral de 2006. Como, também, aquele assessor de um deputado petista, que foi preso ao tentar embarcar num avião com cerca de U$ 100 mil dólares na cueca.
Aliás, se noticiar esse sistema de transportar dinheiro sonante fosse sinal de "guerra de extermínio", seria agora o DEM, e não o PT, a principal vítima de uma suposta conspiração.
Mas nem mesmo os sequazes do governador Arruda arriscaram-se a ir tão longe no cinismo. É que a capacidade petista para a mentira tem origens diferentes, e mais antigas, do que a simples charamela lacrimosa dos espertalhões de voo curto.
Pois o PT, no clássico figurino stalinista, sempre pode dar uma interpretação "de classe" às críticas que venha a merecer. Como o partido se julga o representante místico dos "trabalhadores", o financiamento escuso que receba de empreiteiras, as alterações legais casuísticas que promova em favor de uma empresa de telecomunicação, não representarão escândalo jamais.
Ao contrário: aliar-se financeiramente a "setores do empresariado" que vivem à sombra das benesses do governo, e aliar-se politicamente à escória do Legislativo brasileiro, torna-se um sinal de esperteza política na linha dos fins justificam os meios.
Autoabsolvido pelo venerável espírito hegeliano-marxista da História, o petismo pode fazer tudo o que condenava em seus adversários, e apresentar-se ainda assim como detentor das virtudes mais cristalinas.
Quem apontar a farsa será tachado de inimigo dos trabalhadores -e, na tese de uma imaginária "guerra de extermínio", o PT mostra apenas a sua própria tentação totalitária.
Nessa lógica, que não admite críticas, faz-se de perseguido aquele que se apronta para perseguir; faz-se de vítima quem pretende ser algoz; faz-se de democrata o censor, de honesto o corrupto, de inocente o bandido. O PT perdeu a moral que tantas vezes ostentava quando na oposição. Perdeu a moral, mas não perde o autoritarismo, a mendacidade e a arrogância.

O partido da bandidagem

Editorial, O Estado de São Paulo

O recém-escolhido tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, está tecnicamente certo quando diz que nunca tinha sido acusado de nada nem responde a processo algum, civil ou criminal, por sua atuação na Cooperativa Habitacional do Sindicato dos Bancários de São Paulo (Bancoop), de que foi diretor financeiro (entre 2003 e 2004) e presidente (de 2005 até fevereiro passado). Mas os seus protestos de inocência só se sustêm graças à letárgica andadura da Justiça brasileira. Datam de setembro de 2006, há 3 anos e meio portanto, as primeiras denúncias de irregularidades na cooperativa, levantadas pelo Ministério Público (MP) do Estado. Em 2007, foi aberto inquérito criminal para apurar delitos da entidade, como superfaturamento de obras, apropriação indébita, desvio de verba e formação de quadrilha. No ano seguinte, uma testemunha disse ao MP que recursos desviados da Bancoop ajudaram a financiar clandestinamente a vitoriosa campanha presidencial de Lula em 2002.
A testemunha, Hélio Malheiro, era irmão de um ex-presidente da cooperativa, Luiz Eduardo, falecido em um acidente de carro em 2004, juntamente com dois outros dirigentes da instituição. Dizendo-se ameaçado de morte, Hélio foi acolhido no Programa de Proteção a Testemunhas do governo paulista. O seu depoimento foi crucial para o MP caracterizar a Bancoop como uma “organização criminosa” e solicitar a quebra do seu sigilo bancário, como foi noticiado em junho de 2008. Só na semana passada, porém, o promotor responsável pelas investigações, José Carlos Blat, recebeu o papelório — mais de 8 mil páginas de registros de transações entre 2001 e 2008. E foi com base nessa documentação que ele pediu, na última sexta-feira, o bloqueio das contas da Bancoop e a abertura dos dados bancários e fiscais de João Vaccari Neto, acusando-o de “gestão fraudulenta”.
A apropriação para fins pessoais e políticos dos recursos dos cooperados, fundos de pensão e empréstimos captados pelo sindicato dos bancários transformou 400 famílias em vítimas do conto da casa própria: os imóveis que compraram na planta não foram construídos, mas os lesados continuaram a pagar as respectivas prestações. Segundo a revista Veja, que teve acesso aos autos do inquérito, a Bancoop sacou em dinheiro vivo de suas contas pelo menos R$ 31 milhões. Outros cheques, somando R$ 10 milhões, favoreceram uma empreiteira formada por diretores da entidade, que, por sinal, era sua única cliente conhecida. O responsável pelas obras da cooperativa disse que os pagamentos eram superfaturados em 20%. “Os dirigentes da Bancoop”, apurou Blat, “sangraram os cofres da cooperativa em benefício próprio e também para fomentar campanhas políticas do PT.”

A prova mais gritante foi o R$ 1,5 milhão pago entre 2005 e 2006 — quando a instituição estava praticamente quebrada — a uma firma espectral de serviços de segurança, então de propriedade de Freud Godoy, na época segurança de Lula. Cada qual a seu modo, Godoy e Vaccari se envolveram no escândalo do dossiê, a compra abortada pela Polícia Federal de material supostamente incriminador para candidatos tucanos na campanha de 2006. Quando a operação fez água, Lula chamou os seus autores de “aloprados”. Pelo dossiê, os petistas pagariam R$ 1,7 milhão. Nunca se descobriu de onde veio a dinheirama. À luz do que já se sabe das falcatruas da Bancoop, ela pode ter sido a fonte pagadora da baixaria. Tão logo entregou parte da bolada aos encarregados de comprar o dossiê, foi para Vaccari que ligou um dos cabeças da operação, Hamilton Lacerda, então assessor do senador Aloizio Mercadante.
Mas Vaccari não é o primeiro elo da cadeia. Ele deve a sua carreira ao companheiraço Ricardo Berzoini, que presidia o PT até poucas semanas — e, como tal, foi acusado de autorizar a compra do dossiê. Berzoini alçou o bancário Vaccari à presidência do sindicato da categoria, em 1998. Em 2004, Berzoini salvou a Bancoop da falência, ajudando-a a levantar no mercado R$ 43 milhões — via fundos de pensão de estatais comandados por petistas do grupo dele e de Vaccari. A Polícia Federal chegou a abrir inquérito sobre o prejuízo imposto aos fundos para favorecer a Bancoop. A rigor, nenhuma surpresa, considerando a folha corrida do PT. Mas, a cada escândalo, mais se aprende sobre a destreza com que a bandidagem petista se apossa do dinheiro alheio para chegar lá — e ali se manter.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Caiu a casa do tesoureiro do PT

Laura Diniz, Veja

Depois de quase três anos de investigação, o Ministério Público de São Paulo finalmente conseguiu pôr as mãos na caixa-preta que promete desvendar um dos mais espantosos esquemas de desvio de dinheiro perpetrados pelo núcleo duro do Partido dos Trabalhadores: o esquema Bancoop. Desde 2005, a sigla para Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou, no lugar dos apartamentos, um rastro de escombros. Pelo menos 400 famílias movem processos contra a cooperativa, alegando que, mesmo tendo quitado o valor integral dos imóveis, não só deixaram de recebê-los como passaram a ver as prestações se multiplicar a ponto de levá-las à ruína. Agora, começa-se a entender por quê.
Na semana passada, chegaram às mãos do promotor José Carlos Blat mais de 8.000 páginas de registros de transações bancárias realizadas pela Bancoop entre 2001 e 2008. O que elas revelam é que, nas mãos de dirigentes petistas, a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do partido. "A Bancoop é hoje uma organização criminosa cuja função principal é captar recursos para o caixa dois do PT e que ajudou a financiar inclusive a campanha de Lula à Presidência em 2002." Na sexta-feira, o promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da Bancoop e a quebra de sigilo bancário daquele que ele considera ser o principal responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, seu ex-diretor financeiro e ex-presidente João Vaccari Neto. Vaccari acaba de ser nomeado o novo tesoureiro do PT e, como tal, deve cuidar das finanças da campanha eleitoral de Dilma Rousseff à Presidência.
Um dos dados mais estarrecedores que emergem dos extratos bancários analisados pelo MP é o milionário volume de saques em dinheiro feitos por meio de cheques emitidos pela Bancoop para ela mesma ou para seu banco: 31 milhões de reais só na pequena amostragem analisada. O uso de cheques como esses é uma estratégia comum nos casos em que não se quer revelar o destino do dinheiro. Até agora, o MP conseguiu esquadrinhar um terço das ordens de pagamento do lote de trinta volumes recebidos. Metade desses documentos obedecia ao padrão destinado a permitir saques anônimos. Já outros cheques encontrados, totalizando 10 milhões de reais e compreendidos no período de 2003 a 2005, tiveram destino bem explícito: o bolso de quatro dirigentes da cooperativa, o ex-presidente Luiz Eduardo Malheiro e os ex-diretores Alessandro Robson Bernardino, Marcelo Rinaldo e Tomas Edson Botelho Fraga – os três primeiros mortos em um acidente de carro em 2004 em Petrolina (PE).
Eles eram donos da Germany Empreiteira, cujo único cliente conhecido era a própria Bancoop. Segundo o engenheiro Ricardo Luiz do Carmo, que foi responsável por todas as construções da cooperativa, as notas emitidas pela Germany para a Bancoop eram superfaturadas em 20%. A favor da empreiteira, no entanto, pode-se dizer que ela ao menos existia de fato. De acordo com a mesma testemunha, não era o caso da empresa de "consultoria contábil" Mizu, por exemplo, pertencente aos mesmos dirigentes da Bancoop e em cuja contabilidade o MP encontrou, até o momento, seis saídas de dinheiro referentes ao ano de 2002 com a rubrica "doação PT", no valor total de 43 200 reais. Até setembro do ano passado, a lei não autorizava cooperativas a fazer doações eleitorais. Os depoimentos colhidos pelo MP indicam que o esquema de desvio de dinheiro da Bancoop obedeceu a uma trajetória que já se tornou um clássico petista. Começou para abastecer campanhas eleitorais do partido e acabou servindo para atender a interesses particulares de petistas.
'Cozinha' - Outro frequente agraciado com cheques da Bancoop tornou-se nacionalmente conhecido na esteira de um dos últimos escândalos que envolveram o partido. Freud "Aloprado" Godoy – ex-segurança das campanhas do presidente Lula, homem "da cozinha" do PT e um dos pivôs do caso da compra do falso dossiê contra tucanos na campanha de 2006 – recebeu, por meio da empresa que dirigia até o ano passado, onze cheques totalizando 1,5 milhão de reais, datados entre 2005 e 2006. Nesse período, a Caso Sistemas de Segurança, nome da sua empresa, funcionava no número 89 da Rua Alberto Frediani, em Santana do Parnaíba, segundo registro da Junta Comercial. Vizinhos dizem que, além da placa com o nome da firma, nada indicava que houvesse qualquer atividade por lá. O único funcionário visível da Caso era um rapaz que vinha semanalmente recolher as correspondências num carro popular azul. Hoje, a Caso se transferiu para uma casa no município de Santo André, na região do ABC.
Depoimentos colhidos pelo MP ao longo dos últimos dois anos já atestavam que o dinheiro da Bancoop havia servido para abastecer a campanha petista de 2002 que levou Lula à Presidência da República. VEJA ouviu uma das testemunhas, Andy Roberto, que trabalhou como segurança da Bancoop e de Luiz Malheiro entre 2001 e 2005. Em depoimento ao MP, Roberto afirmou que Malheiro, o ex-presidente morto da Bancoop, entregava envelopes de dinheiro diretamente a Vaccari, então presidente do Sindicato dos Bancários e indicado como o responsável pelo recolhimento da caixinha de campanha de Lula. Em entrevista a VEJA, Roberto não repetiu a afirmação categoricamente, mas disse estar convicto de que isso ocorria e relatou como, mesmo depois da eleição de Lula, entre 2003 e 2004, quantias semanais de dinheiro continuaram saindo de uma agência Bradesco do Viaduto do Chá, centro de São Paulo, supostamente para o Sindicato dos Bancários, então presidido por Vaccari. "A gente ia no banco e buscava pacotes, duas pessoas escoltando uma terceira." Os pacotes, afirmou, eram entregues à secretária de Luiz Malheiro, que os entregava ao chefe. "Quando essas operações aconteciam, com certeza, em algum horário daquele dia, o Malheiro ia até o Sindicato dos Bancários. Ou, então, se encontrava com o Vaccari em algum lugar."

Gushiken ofereceu Eletronet a empresas privadas

Por Renato Cruz, O Estado de São Paulo

O governo ofereceu a Eletronet para operadoras privadas, depois de o empresário Nelson dos Santos, que tem negócios com o ex-ministro José Dirceu, comprar o controle da companhia por R$ 1. Fernando Xavier Ferreira, que comandava o Grupo Telefônica no Brasil, teve um encontro em Brasília com Luiz Gushiken, então responsável pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da presidência da República.
Em seu blog, o ex-ministro José Dirceu confirmou na semana passada ter recebido R$ 620 mil pelo pagamento de uma consultoria à empresa Adne, do empresário Nelson dos Santos, entre março de 2007 e setembro de 2009. Ele argumentou que, quando Nelson dos Santos adquiriu 51% da Eletronet, em 2005, nem conhecia o empresário. Se Gushiken tivesse obtido sucesso em negociar a Eletronet com alguma empresa privada, acabaria beneficiando Nelson dos Santos.
Ferreira afirma que, na reunião com Gushiken, foi consultado se queria comprar a Eletronet. “Realmente, houve um momento em que foi colocada essa questão, do interesse nosso em avaliar a Eletronet, mas, na ocasião, comunicamos que não tínhamos interesse na avaliação”, diz Ferreira.
Antes de comandar a NAE, Gushiken foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação. Ele admite ter conversado com empresas para saber se tinham interesse na Eletronet, incluindo a Telefônica. “Na época, fiz reunião com muita gente”, afirma o ex-ministro, que deixou o cargo em 2006. “Mas nunca apresentei um modelo pronto e acabado. Cheguei a sondar muita gente, sobre como viam essa rede, e sondava com toda a cautela que merece uma coisa desse tipo. Eu articulei esse assunto por muito tempo. E não passou pelo José Dirceu como a imprensa vem falando.”
Gushiken nega ter tido qualquer contato com Nelson dos Santos, sócio privado da Eletronet e cliente de José Dirceu. “Nem sei quem é”, diz o ex-ministro, apesar de admitir que tinha informações sobre a mudança de controle na época em que procurava uma saída para a empresa. “Fiquei sabendo no meio do caminho desse pessoal que tinha comprado a Eletronet por R$ 1 da AES, mas ninguém tinha clareza de qual impacto legal poderia ter a medida que foi tomada por esse empresário.”
No fim do ano passado, o governo retomou na Justiça do Rio a posse das fibras ópticas que não estão sendo usadas pela Eletronet, e pertencem às distribuidoras de energia. Para isso, teve de fazer um depósito judicial de R$ 270 milhões para garantir o ressarcimento dos credores, se o tribunal assim o decidir. A Eletronet está em processo de falência, e tem dívidas de cerca de R$ 800 milhões. Os maiores credores são as fabricantes Furukawa e Alcatel Lucent, que forneceram os equipamentos e os cabos para a Eletronet. A Eletrobrás tem 49% da Eletronet.
BANDA LARGA
A Eletronet controla uma rede de 16 mil quilômetros de fibras ópticas, presente em 18 Estados brasileiros. O governo planeja usá-la no Plano Nacional de Banda Larga que propõe, entre outras medidas, ressuscitar a Telebrás. A proposta seria usar a infraestrutura de fibras ópticas para oferecer internet rápida de baixo custo.
Segundo Gushiken, essa ideia começou quando ele ainda estava no governo. “A gente não tinha um formato jurídico adequado para isso, mas chegamos a pensar na Telebrás, chegamos a pensar no Serpro, e cheguei a pensar também numa estrutura em que tivesse o setor privado participando minoritariamente”, diz o ex-ministro. “Não podíamos pensar numa rede puramente estatal, porque iria tirar um volume de recursos que estava no setor privado, o que poderia criar algum constrangimento.”
Apesar de Gushiken falar em participação minoritária do setor privado, na reunião com o ex-presidente da Telefônica, a consulta foi sobre o interesse da empresa em comprar toda a Eletronet. Ferreira explica que o grupo espanhol já tinha avaliado a empresa quando foi chamado pelo governo. “O assunto Eletronet já havia sido trazido à Telefônica pelos próprios credores, interessados em achar uma solução para o problema deles”, diz. “Já tínhamos feito uma análise e chegado à conclusão de que não se tratava de algo interessante para a Telefônica.”

A decepcionante visita de Lula

Mario Vargas Llosa

O ESTADO DE SÃO PAULO - 07/03/2010


Minha capacidade de indignação política atenua-se um pouco nos meses do ano que passo na Europa. Suponho que a razão disso seja o fato de que, lá, vivo em países democráticos nos quais, independentemente dos problemas de que padecem, há uma ampla margem de liberdade para a crítica, e a imprensa, os partidos, as instituições e os indivíduos costumam protestar de maneira íntegra e com estardalhaço quando ocorrem episódios ultrajantes e desprezíveis, principalmente no campo político.

Entretanto, na América Latina, onde costumo passar de três a quatro meses ao ano, esta capacidade de indignação volta sempre, com a fúria da minha juventude, e me faz viver sempre temeroso, alerta, desassossegado, esperando (e perguntando-me de onde virá desta vez) o fato execrável que, provavelmente, passará despercebido para a maioria, ou merecerá o beneplácito ou a indiferença geral.

Na semana passada, experimentei mais uma vez esta sensação de asco e de ira, ao ver o risonho presidente Lula do Brasil abraçando carinhosamente Fidel e Raúl Castro, no mesmo momento em que os esbirros da ditadura cubana perseguiam os dissidentes e os sepultavam nos calabouços para impedir que assistissem ao enterro de Orlando Zapata Tamayo, o pedreiro pacifista da oposição, de 42 anos, pertencente ao Grupo dos 75, que os algozes castristas deixaram morrer de inanição - depois de submetê-lo em vida a confinamento, torturas e condená-lo com pretextos a mais de 30 anos de cárcere - depois de 85 dias de greve de fome.

Qualquer pessoa que não tenha perdido a decência e tenha um mínimo de informação sobre o que acontece em Cuba espera do regime castrista que aja como sempre fez. Há uma absoluta coerência entre a condição de ditadura totalitária de Cuba e uma política terrorista de perseguição a toda forma de dissidência e de crítica, a violação sistemática dos mais elementares direitos humanos, de falsos processos para sepultar os opositores em prisões imundas e submetê-los a vexames até enlouquecê-los, matá-los ou impeli-los ao suicídio. Os irmãos Castro exercem há 51 anos esta política, e somente os idiotas poderiam esperar deles um comportamento diferente.

DESCARAMENTO

Mas de Luiz Inácio Lula da Silva, governante eleito em eleições legítimas, presidente constitucional de um país democrático como o Brasil, seria de esperar, pelo menos, uma atitude um pouco mais digna e coerente com a cultura democrática que teoricamente ele representa, e não o descaramento indecente de exibir-se, risonho e cúmplice, com os assassinos virtuais de um dissidente democrático, legitimando com sua presença e seu proceder a caçada de opositores desencadeada pelo regime no mesmo instante em que ele era fotografado abraçando os algozes de Zapata.

O presidente Lula sabia perfeitamente o que estava fazendo. Antes de viajar para Cuba, 50 dissidentes lhe haviam pedido uma audiência durante sua estadia em Havana para que intercedesse perante as autoridades da ilha pela libertação dos presos políticos martirizados, como Zapata, nos calabouços cubanos. Ele se negou a ambas as coisas.

Não os recebeu nem defendeu sua causa em suas duas visitas anteriores à ilha, cujo regime liberticida sempre elogiou sem o menor eufemismo.

Além disso, este comportamento do presidente brasileiro caracterizou todo o seu mandato. Há anos que, em sua política exterior, ele desmente de maneira sistemática sua política interna, na qual respeita as regras do estado de direito, e, em matéria econômica, em vez das receitas marxistas que propunha quando era sindicalista e candidato - dirigismo econômico, estatizações, repúdio dos investimentos estrangeiros, etc. -, promove uma economia de mercado e da livre iniciativa como qualquer estadista social-democrata europeu.

Mas, quando se trata do exterior, o presidente Lula se despe de suas vestimentas democráticas e abraça o comandante Chávez, Evo Morales, o comandante Ortega, ou seja, com a escória da América Latina, e não tem o menor escrúpulo em abrir as portas diplomáticas e econômicas do Brasil aos sátrapas teocráticos integristas do Irã.

O que significa esta duplicidade? Que Lula nunca mudou de verdade? Que é um simples mascarado, capaz de todas as piruetas ideológicas, um político medíocre sem espinha dorsal cívica e moral? Segundo alguns, os desígnios geopolíticos para o Brasil do presidente Lula estão acima de questiúnculas como Cuba, ou a Coreia do Norte, uma das ditaduras onde se cometem as piores violações dos direitos humanos e onde há mais presos políticos.

O importante para ele são coisas mais transcendentes como o Porto de Mariel, que o Brasil está financiando com US$ 300 milhões, ou a próxima construção pela Petrobrás de uma fábrica de lubrificantes em Havana. Diante de realizações deste porte, o que poderia importar ao "estadista" brasileiro que um pedreiro cubano qualquer, e ainda por cima negro e pobre, morresse de fome clamando por ninharias como a liberdade? Na verdade, tudo isto significa, infelizmente, que Lula é um típico mandatário "democrático" latino-americano.

Quase todos eles são do mesmo feitio, e quase todos, uns mais, outros menos, embora - quando não têm mais remédio - praticam a democracia no seio dos seus próprios países, mas, no exterior, não têm nenhuma vergonha, como Lula, em cortejar ditadores e demagogos, porque acham, coitados, que desta maneira os tapinhas amistosos lhes proporcionarão uma credencial de "progressistas" que os livrará de greves, revoluções e de campanhas internacionais acusando-os de violar os direitos humanos.

Como lembra o analista peruano Fernando Rospigliosi, em um artigo admirável: "Enquanto Zapata morria lentamente, os presidentes da América Latina - entre eles o algoz cubano - reuniam-se no México para criar uma organização (mais uma!) regional. Nem uma palavra saiu dali para exigir a liberdade ou um melhor tratamento para os mais de 200 presos políticos cubanos." O único que se atreveu a protestar - um justo entre os fariseus - foi o presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera.

De modo que a cara de qualquer um destes chefes de Estado poderia substituir a de Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando os irmãos Castro, na foto que me revoltou o estômago ao ver os jornais da manhã.

Estas caras não representam a liberdade, a limpeza moral, o civismo, a legalidade e a coerência na América Latina. Estes valores estão encarnados em pessoas como Orlando Zapata Tamayo, nas Damas de Branco, Oswaldo Payá, Elizardo Sánchez, a blogueira Yoani Sánchez, e em outros cubanos e cubanas que, sem se deixarem intimidar pelas pressões, as agressões e humilhações cotidianas de que são vítimas, continuam enfrentando a tirania castrista. E se encarnam ainda, em primeiro lugar, nas centenas de prisioneiros políticos e, sobretudo, no jornalista independente Guillermo Fariñas, que, enquanto escrevo este artigo, há oito dias está em greve de fome em Cuba para protestar pela morte de Zapata e exigir a libertação dos presos políticos.

O curioso e terrível paradoxo é que no interior de um dos mais desumanos e cruéis regimes que o continente conheceu se encontrem hoje os mais dignos e respeitáveis políticos da América Latina.
 
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quinta-feira, 4 de março de 2010

Fotografias de Havana

Demétrio Magnoli

David Nicholl, um neurologista britânico, coordenou em 2006 a campanha internacional da comunidade médica contra a alimentação forçada de prisioneiros na base americana de Guantánamo. Ele explicou que, nos EUA e na Grã-Bretanha, as regras de ética médica proíbem tal prática. Em Cuba, a ética médica, como tudo mais, oscila ao sabor da vontade do Partido-Estado e ninguém inseriu tubos alimentares em Orlando Zapata, o preso político que morreu após 85 dias de greve de fome. Um artigo do Granma, o jornal oficial castrista, responsabilizou os EUA e os dissidentes cubanos pelo desfecho. Lula, em visita a Cuba, lamentou que "uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome", algo equivalente a culpar a própria vítima. Marco Aurélio Garcia preferiu banalizar o mal, explicando com sua peculiar cupidez que "há problemas de direitos humanos no mundo inteiro". Essa gente não tem vergonha na cara?

A linguagem da ditadura militar no Brasil era idêntica à do regime cubano e de seus bonecos de ventríloquo brasileiros. Vladimir Herzog morreu em virtude de seus atos subversivos e, no fundo, por responsabilidade do "comunismo internacional". Herzog era qualificado como um "terrorista", mesmo se nunca cometeu um ato de violência, tanto quanto Zapata era qualificado como um "mercenário". Lula et caterva estão ecoando as vozes dos tiranos "de direita", quando reverberam as sentenças dos seus amigos tiranos "de esquerda". As coisas que disseram em Havana constituem uma desgraça nacional. Eles falam sobre nós: nossa história e nosso passado recente.

O inefável Marco Aurélio Garcia mencionou Guantánamo, como Dilma Rousseff mencionara Abu Ghraib para "normalizar" a selvagem repressão em curso no Irã. Anos atrás, nos tempos de George Bush, o governo Lula esquivava-se de tocar nesses temas melindrosos. O silêncio, agora se sabe, não derivava da covardia, mas de uma forma obscena de esperteza: eles guardavam Guantánamo e Abu Ghraib num cofre, como uma apólice de seguro para o futuro. Os parasitas da tortura de Bush usam hoje aquela apólice para desculpar as violações de direitos humanos de seus aliados ideológicos ou circunstanciais. Essa gente não tem nenhum princípio?

Meses atrás, o ex-senador Abdias do Nascimento, dirigente histórico do movimento negro no Brasil, enviou uma carta de protesto contra o encarceramento do médico cubano e ativista de direitos humanos Darsi Ferrer, que iniciara greve de fome pelo reconhecimento de sua condição de preso político. A carta tinha como destinatários Raúl Castro, Lula e o próprio Ferrer, a quem Abdias suplicava que desistisse da greve de fome. Cuba continuou a recusar o estatuto de preso político ao ativista e não se conhece nenhuma manifestação de Lula a respeito. Ferrer, contudo, atendeu à súplica de Abdias. Agora, no caso de Zapata, Lula criticou a opção do prisioneiro pela greve de fome, mas esqueceu-se de mencionar a reivindicação que o movia, igual à de Ferrer. Nosso presidente não atina para o que acontece em Cuba?

Fidel Castro alcançou notoriedade no dia 26 de julho de 1953, quando comandou um ataque frustrado ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba, numa tentativa insurrecional contra a ditadura de Fulgêncio Batista. O jovem Castro foi sentenciado a 15 anos de prisão e enviado ao cárcere da Isla de Pinos, reservada a presos políticos, onde permaneceu menos de dois anos, até ser beneficiado por uma anistia geral. Na Cuba dos Castro, Ferrer, Zapata e duas centenas de outros presos políticos que jamais participaram de levantes armados são declarados criminosos comuns. Zapata morreu para não ser obrigado a usar um uniforme de criminoso. Ele foi assassinado por uma ditadura pior que a de Batista, avessa aos princípios elementares de respeito à dignidade humana. Lula não é capaz nem ao menos de pedir que os irmãos Castro, seus amigos do peito, concedam aos dissidentes encarcerados o direito ao rótulo de presos políticos?

Laura Pollán entregou a Fidel Castro, dois anos atrás, o livro Enterrados Vivos, escrito por seu marido Héctor Maseda, um dos 75 dissidentes sentenciados na Primavera Negra de 2003. O gesto lhe custou o emprego, mas assinalou a criação da organização Damas de Branco, formada por parentes de presos políticos. Enquanto Lula divertia os irmãos Castro, fotografando-os e rindo como uma hiena, Laura carregava uma alça do caixão de Zapata e abraçava em silêncio a mãe do dissidente morto. Dias antes, ela ajudara a encaminhar uma mensagem de presos políticos cubanos solicitando uma palavra do presidente brasileiro em favor da vida do prisioneiro que jogava sua cartada final. O pedido ficou sem resposta, mas não faltou uma ofensa equilibrada sobre os pilares simétricos da covardia e do cinismo: "As pessoas precisam parar com o hábito de fazer carta, guardar para si e depois dizer que mandaram."

A ditadura castrista não matou Zapata quando decidiu não alimentá-lo à força, mas bem antes, ao recusar-lhe o estatuto de preso político, um santuário simbólico da dignidade dos que sacrificam a liberdade pessoal em nome de poderosas convicções. Os assassinos estão cercados de cúmplices, que são os líderes políticos e os intelectuais "amigos de Cuba". No passado ainda recente da guerra fria, nenhuma voz poderia demover o regime de Havana da decisão de fuzilar ou enterrar vivos aqueles que ousavam denunciar o totalitarismo. Hoje, a clique anacrônica aferrada ao poder absoluto num sistema social em decomposição só pode matar na redoma fabricada pela cumplicidade dos "companheiros de viagem".

Zapata morreu porque Lula não disse nada. Ele morreu porque os intelectuais disponíveis para firmarem um abaixo-assinado contra o editorial equivocado de um jornal brasileiro não estão disponíveis para contrariar a "linha justa" do Partido. Com que direito todos eles ainda usam o nome dos direitos humanos?

Demétrio Magnoli, sociólogo, é doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: Demetrio.Magnoli@terra.Com.Br

terça-feira, 2 de março de 2010

Ai que tédio, digo eu

Por Luiz Felipe Pondé, Folha de S. Paulo

TOMO REMÉDIO , faço ioga, meditação, o diabo, mas não adianta. O mundo me obriga a me ocupar com coisas "menores" do tipo a política criando novos seres humanos. Temo novos seres humanos porque são monstros com cara de anjos, prefiro velhos e miseráveis viciados. Não confio em pessoas que não se reconhecem viciadas em algo. Detesto por definição toda política que quer "ensinar o Bem".
Ninguém me engana com esse blá-blá-blá de "voto cidadão". Aliás, melhor seria que o voto não fosse uma obrigação legal no Brasil, pois eu teria melhor uso para os feriados do que esta conversa mole ocupa.
Sei que muitos leitores dirão: "Lá vem o colunista de direita de novo, alguém o faça calar a boca!" Ai que tédio, digo eu. Que mania essa de enquadrar a selvagem multiplicidade do mundo em gavetinhas mentais!
Jurei que não iria falar dessa aberração fascista que é a guinada à esquerda do governo e seus subprodutos do tipo "3º Programa Nacional de Direitos Humanos". Sim, fascismo e esquerdismo são chifres da mesma cabra. Muitos leitores e amigos (tenho, sim, uns poucos) me cobraram um artigo sobre as últimas tentativas do PT de refazer a esquerda "moldando" hábitos e costumes. Resisti, rezei, mas não deu.
Mas voltando às "gavetinhas mentais". Recentemente, vimos um show de sarros com relação à possível candidata republicana à Presidência dos EUA, Sarah Palin. "Burra, tapada, caipira!" Lembremos, caros irmãos, que com o Reagan foi a mesma coisa. "Esse ator burro", diziam. E o cara foi de longe o melhor presidente dos EUA nos últimos 40 anos. Botou a casa em ordem depois dos estragos do incompetente "bonzinho" do Jimmy Carter.
Será que os intelectuais e a mídia não aprenderam a lição? Só porque a mulher escreveu uma singela cola na mão em seu discurso em Nashville, caíram de pau em cima dela. Eu achei até sensual (ela é um avião, as feias devem odiá-la) e puro vintage num mundo onde qualquer matuto brega saca um palmtop quando vai dar conferência motivacional por aí.
Outros, piores, ainda a comparam a integrantes da Klu Klux Klan (KKK). Toda vez que alguém discorda do bê-á-bá da esquerda americana, alguém saca esse lero-lero da KKK. Ai que tédio, digo eu.
Mas voltando à nossa própria cozinha. Nada tenho contra essa invenção francesa de direitos humanos. Tão francês quanto o croissant. Mas, me digam: por que alguém deve ter direito de "furar a fila" porque se veste com a roupa do outro sexo?
Acho que se vândalos espancam alguém porque ele usa roupa de mulher quando nasceu homem, devem ser punidos, assim como quem bate em velhinhas e rouba suas compras na feira deve ir em cana. Mas por que um cara deve ganhar algo do Estado só porque usa saias em vez de calças? E essa coisa de criminalizar linguagem e gestos sob suspeita de serem "homofóbicos"? Daqui a pouco, ninguém dará emprego para um gay porque, se for demiti-lo, poderá ser processado por homofobia.
O controle de linguagem e gestos é claramente prática fascista. Assim como a criação de "cidadãos" intocáveis por serem considerados vítimas a priori.
"Democraticamente", o ideário desses caras que foram "revolucionários" e agora tomam uísque às nossas custas vai se impondo à sociedade. Qual opção nós temos, nas próximas eleições obrigatórias, além de variantes da mesma obsessão esquerdinha aguada? Nenhuma.
Reeditam a culpabilidade a priori de quem ficou rico querendo que paguem mais impostos para que tomem mais uísques de graça (em nome do povo). Ai que tédio, digo eu. Por que taxar as grandes fortunas?
Por que atacar quem move a economia punindo-os porque foram mais competentes nesse mundo cão? Eu também tenho inveja dos ricos, mas tomo remédio todo dia para isso, e vou trabalhar.
E o órgão de controle da "comunicação social"? Esse é mesmo o fim da picada. Dizem que é para combater o monopólio, mas suspeito de que seja mesmo para arrebentar quem não aceitar a "carta" fascista deles e "pontuar" negativamente os rebeldes. Puro chavismo açucarado.
Esse negócio de nos obrigar a ver "produções regionais" é um horror. Por que devo aturar programas chatos só porque quem fez se chama "alguma coisa Silva"? TV deve ser regida por competência, seja "fulano Silva", seja "fulano Smith".
E o MST como "gente boazinha" que só quer o nosso bem? Vão tomar a terra dos outros como se fosse evidente que esses "tomadores" são enviados de Jesus.
Ai que tédio, digo eu.