sábado, 13 de março de 2010

Lula faz defesa explícita da repressão em Cuba

Editorial, Valor Econômico

Embalado pelo crescente prestígio de que desfruta no exterior, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece estar disposto a pô-lo à prova. Ele poderá conseguir destruí-lo em pouco tempo, a julgar pela quantidade e qualidade das declarações que tem feito em tão curto espaço de tempo. Carismático e personalista, o presidente passa alegremente por cima das conveniências diplomáticas, com resultados potencialmente desastrosos. O ataque público feito por ele à greve de fome dos dissidentes cubanos, pouco depois de ter visitado o ditador cubano Fidel Castro e seu irmão Raul, é acintoso e aponta um rumo nocivo para a política externa brasileira, que mal tem conseguido acompanhar o imprevisível pragmatismo presidencial.

No exterior, o presidente Lula representa a democracia brasileira. É discutível que ele tenha que dar lições sobre os benefícios desse regime aos países de péssima reputação democrática que visita como chefe de Estado, ou aos que se alia por desejo, como a Venezuela de Hugo Chávez, ou Cuba, a última relíquia stalinista do planeta. Se não deve ou não quer fazer isso, com muito mais razão não deveria fazer o contrário e endossar aberrações cometidas por eles. Ainda mais em termos tão aviltantes quanto os que usou em relação aos dissidentes cubanos: "Greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para libertar pessoas", disse o presidente. "Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação". Líder político experiente, que sentiu a força de uma ditadura na própria pele, fez greve de fome e esteve dias na prisão, o presidente passou uma borracha no passado e parece ter experimentado a conversão frequente a quem chega ao poder - bandidos são todos os que se opõem à linha oficial, sempre justa. É assim com Fidel Castro, tem sido cada vez mais assim com Chávez na Venezuela.

Viúvas da revolução cubana ocupam postos no governo brasileiro e é natural que ainda encontrem no museu stalinista caribenho um ideal a seguir. A nostalgia autoritária agora parece ter contaminado o presidente, que nunca foi comunista e cujo governo não é exatamente de esquerda. Talvez continue em ação o mesmo mecanismo psicológico de compensação política que regeu seu mandato até agora: quanto mais abraça o "capitalismo" internamente, mais busca no exterior firmar suas credenciais esquerdistas, abandonadas por livre e espontânea vontade.

Quanto maior o prestígio do presidente Lula, maior é o desastre causado por declarações como as de Cuba. O contexto em que foram dadas seria um pesadelo para qualquer diplomacia que não estivesse extasiada pelos instintos políticos do presidente. O Brasil busca abrir o diálogo do Irã, de Mahmoud Ahmadinejad, com a comunidade internacional, que já se cansou de negociar e quer impor sanções ao país. A posição brasileira é bastante defensável enquanto se mantiver equidistante em relação aos dois lados. Foi essa imagem de neutralidade que tornou respeitada a diplomacia brasileira, e mantê-la não é trivial.

Quando recebe e conversa com Ahmadinejad e diz que concedeu audiência à secretária de Estado Hillary Clinton por "deferência", quando ela veio ao país discutir a questão iraniana, o presidente Lula dá sinais de parcialidade contraproducentes. Quando o governo americano para de hostilizar Cuba, o presidente brasileiro vai até a ilha elogiar seus ditadores e chamar opositores de bandidos. Quando Chávez pratica seus desmandos, o Brasil lhe dá tapas nas costas, enquanto faz vistas grossas aos ataques autoritários do casal Kirchner na Argentina. Não é preciso mais exemplos para que o papel de mediador neutro do país se desvaneça diante de uma política cada vez mais engajada.

A diplomacia brasileira tem de fazer ginásticas cada vez mais constrangedoras para justificar que um país democrático se alinhe a regimes autoritários. "Uma coisa é você defender, como nós defendemos, a democracia e os direitos humanos, outra coisa é você sair dando apoio a tudo quanto é dissidente", disse o chanceler Celso Amorim. É uma enorme desconversa e não se trata disso. Se para o governo o apoio aos dissidentes cubanos é impensável - e dada a amizade com os Castro, seria para ele mais fácil interceder a favor -, o mínimo que se poderia esperar é que não os condenasse.

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