LULA MARQUES
Na cobertura jornalística do Palácio do Planalto, a notícia não repousa apenas na figura do presidente da República. Um fotógrafo que quer acompanhar a rotina jornalística de Brasília tem de ficar atento às pessoas que rodeiam o homem mais importante do Brasil. Não é raro assessores de governantes virarem o foco da mídia. Temos o exemplo do presidente Fernando Collor, que teve a maior crise de seu governo agravada com uma denúncia de seu ex-motorista Eriberto França (de que um Fiat Elba, usado a serviço de Collor, havia sido comprado com dinheiro de fonte obscura); ou de Getúlio Vargas, que se matou devido à confusão instalada em seu governo por seu chefe da guarda pessoal, Gregório Fortunato, que se envolveu em um atentado contra a vida de Carlos Lacerda, principal inimigo político de Vargas.
Esses seres que orbitam o governo muitas vezes tentam evitar que a imprensa exerça seu papel de vigilante; em alguns momentos, agem com se fossem donos do presidente do Brasil. Pensando nisso, dá uma certa nostalgia lembrar a tranqüilidade que era cobrir a Presidência da República antes da chegada de Lula ao poder. No passado, sabíamos que, em qualquer cerimônia onde o presidente estivesse, jornalistas e fotógrafos seriam tratados como profissionais. A situação que narro a seguir se passou no primeiro mandato do presidente Lula. Dá uma amostra do que enfrentamos no dia-a-dia da cobertura do governo PT - e como é importante observar os coadjuvantes do poder.
Chegamos ao pavilhão do parque da cidade de Brasília, para uma cerimônia que o presidente Lula teria com os membros do MST. Fomos recebidos pelos líderes do Movimento dos Sem Terra com o aviso de que não poderíamos entrar. As portas estavam fechadas e pediram para esperarmos do lado de fora do pavilhão, onde aconteceria a solenidade até a chegada do presidente. A reação inicial foi de incredulidade, mas decidimos esperar com paciência a chegada da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto - que, estranhamente, ainda não tinha dado sinal de vida. Sempre que se chega para qualquer cobertura presidencial, somos recebidos pelos assessores de imprensa e seguranças do presidente, que nos levam ao detector de metal e, depois, para o "baculejo", a revista do nosso equipamento. Só então somos liberados para o espaço pré-determinado pela assessoria de imprensa, com vista privilegiada para os fotógrafos. É essa a rotina.
Passado algum tempo, finalmente chegou um assessor e falou que tão logo o presidente entrasse no prédio, entraríamos atrás. Atitude nova na cobertura presidencial. Cabe aqui um parêntese para dar contexto à situação: o presidente adora chegar atrasado nas cerimônias e deixar todo mundo esperando, como a proverbial noiva que quer criar expectativa. Esperamos quase uma hora do lado de fora do pavilhão e os ânimos começaram a esquentar. Estávamos literalmente cercados e vigiados pelos membros do MST na entrada do local e não víamos motivo para sermos tratado assim. Quando olhamos para dentro do prédio, os poucos seguranças da Presidência organizavam um corredor polonês. Até aí, tudo bem, o presidente passa por dentro do corredor e a gente da imprensa pelo lado de fora, registrando os cumprimentos do presidente aos presentes. Não é novidade acontecer esse tipo de esquema nas visitas do chefe de Estado.
Quando chegou, ficamos cercados pelos membros do MST e não conseguimos registrar o desembarque, o que é grave para o pessoal que trabalha com imagem e irritante para os demais jornalistas. Foi o estopim para uma grande confusão. Começaram a nos empurrar. Nesse momento, ficamos nas mãos dos "seguranças do MST", que agiam com truculência e tentavam nos impedir de entrar no pavilhão. Gritamos pela assessoria
de imprensa, pedindo ajuda, mas nos deram as costas. A única preocupação deles era com o presidente.
Forçamos a entrada quando Lula já estava dentro do pavilhão e nos deparamos com uma situação insólita. Começaram a barrar nossa passagem - não os seguranças da Presidência, que sempre fazem esse papel, mas os participantes do congresso dos trabalhadores Sem Terra. Foi um empurra-empurra louco. Os fotógrafos querendo registrar a chegada do presidente e os manifestantes do Movimento dos Sem Terra levantando as mãos para impedir o registro.
Fotógrafos e cinegrafistas sempre agem da mesma forma, nessas horas. Cada um corre para um lado e alguém fura o cerco. Driblamos o MST, mas caímos no meio do corredor polonês de seguranças e atrás do presidente. Quando tentamos chegar perto de Lula, que já estava cumprimentando os presentes, sentimos o desprezo com que a organização do Palácio do Planalto tratava a imprensa credenciada, ao nos deixar nas mãos dos "seguranças do MST". Parecia que tinham dado uma carta branca para os sem terra baterem o quanto quisessem e tentassem quebrar nossos equipamentos.
A gente reagiu, claro. Mas o que mais me deixou indignado foi estar naquela situação e ver os seguranças e um assessor de imprensa se divertindo à nossa custa. Não faziam nada para acabar com o tumulto, só riam da nossa cara. Passei a fotografar os colegas sendo agredidos. Só que, a cada foto que fazia, vinham três ou quatro sem terra em cima de mim para impedir. Quebraram meu flash e levei alguns safanões.
Ficamos quase cinco minutos na batalha campal. Resultado da cobertura: vários flashes quebrados e alguns cinegrafistas de olho roxo. Os que trabalham com uma pesada câmera do ombro perdem mobilidade na hora de se defender e viram alvo fácil para covardes.
O presidente Lula chegou ao palco de dois metros de altura. Começamos a nos organizar, mas não tínhamos local marcado. Acabamos ficando na frente dos membros do MST, tampando a visão dos que queriam ver o presidente. Começou um novo empurra-empurra. Só que naquela hora estávamos todos juntos e decidimos não sair. Como a cerimônia não começava por causa da confusão, apareceram vários seguranças e o pessoal da assessoria de imprensa do Palácio para organizar a bagunça.
Aquele pavilhão ao meio-dia parece uma sauna. Além do calor, o cheiro de suor, misturado com cheiro de álcool e, àquela altura, também, a minha fome, me deixavam de estômago embrulhado. Acho que só não passei mal por não ter nada na barriga. Mas, além da confusão e da forma do governo se relacionar com a imprensa, a cerimônia, que começou com muito atraso, teria algo mais a revelar.
Vários ministros de Estado que estavam presentes começaram a discursar. Para o presidente não ficar entediado durante os discursos, sempre aparece um assessor para passar alguma informação. E apareceu mesmo um, até então desconhecido da grande imprensa: Delúbio Soares, tesoureiro do PT. Na época, tentamos descobrir o porquê da sua presença na cerimônia; mas, como de hábito, o Palácio não respondeu.
Cerimônia tediosa, calor insuportável, cheiro horrível de muita gente espremida em pouco espaço, discursos intermináveis e o presidente ali sem fazer nada, quando Delúbio Soares chegou por trás do ministro Luiz Dulci e colocou uma cadeira para conversar com Lula. Puxação-de-saco explícita, Delúbio ofereceu uma cigarrilha holandesa para o presidente Lula, que não se fez de rogado. Para não fumar na frente da imprensa, abaixava atrás da cadeira como menino que está fazendo coisa errada e se escondia atrás do ministro, Luiz Dulci. Fumou várias vezes, depois ficou com aquela cara de paisagem, acreditando que tinha enganado a imprensa. Só que desta vez não escapou da minha lente.
Meses depois, estourou um caso de corrupção conhecido como "Mensalão", supostamente operado pelo publicitário Marcos Valério e pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o homem da cigarrilha do presidente. Tentaram desclassificar a amizade e intimidade de Delúbio com o presidente Lula, mas a seqüência de fotos do presidente fumando escondido, ao lado do tesoureiro do PT, valia mais que mil palavras. Essa série de imagens foi a mais lembrada e publicada pelos jornais na época do escândalo, que de tão marcante derrubou vários políticos influentes, como o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
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"Caçadores de Luz - Histórias de Fotojornalismo"Autores: Sérgio Marques, Lula Marques e Alan Marques
Editora: Publifolha
Páginas: 240
Quanto: R$ 39,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
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